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22 agosto 2020

O arco sob a lua

Por Leandro Radrak

(Este conto se passa na Era dos Dragões, muito antes da Era de Rashidi )


Ônix levou a pata à boca e a lambeu de modo despreocupado, passando-a em seguida no rosto felino. Era um gato peculiar. Um animal feito da mesma pedra que lhe dava o nome. Sua pele era completamente preta, lisa e brilhante, dando ao animal um aspecto mágico. Seus olhos ostentavam um verde intenso e emanavam ansiedade e astúcia.
Ele ignorava seu companheiro mal humorado, que o observava de cima, bufando. Um dragão de ébano que Ônix vira nascer e ajudara a criar, porém, tinha receio, o veria morrer preso nas teias da vingança.
– Estou perdendo meu tempo... – rosnou o dragão ao seu lado, tirando os olhos do felino para encarar o horizonte.
Distantes, nuvens pesadas açoitavam o solo com relâmpagos mudos. Centenas de seres alados se digladiavam, soprando fogo, gelo, energia pura ou líquidos diversos. Também invocavam feitiços ancestrais, comandando os elementais e pintando no horizonte um colorido quadro de caos e destruição.
– Seu inimigo não está lá. – resmungou o gato, assumindo uma pose austera.
– Não ainda...
– Que tal uma história, meu bom Sukemarantus? Algo para acalmar sua ansiedade? Tenho algo na ponta da língua que combina com a guerra de estupidez épica que vemos à nossa frente. Algo que faz frente a tal paisagem de morte entre nossos irmãos. – sugeriu Ônix, com tom maroto.
– Tenho escolha? Vejo que é por isso que você me mantém aqui.
O gato se espreguiçou, saltou para uma rocha mais alta e encarou o companheiro. Tinha um sorriso vitorioso entre os bigodes.
– Juro que um dia eu o engulo. – rosnou o dragão.
– Você poderia tentar, mas creio que seria indigesto se eu assumisse minha forma draconica dentro de você...

01 agosto 2020

A protegida de Maria

Na orla de uma extensa floresta morava um lenhador e sua esposa. Eles tinham apenas uma filha, que era uma menina de três anos. Mas eles eram tão pobres que não tinham mais o pão de cada dia e já não sabiam o que haveriam de dar-lhe para comer. Certa manhã o lenhador foi com grande preocupação até a floresta para cuidar de seu trabalho e, quando estava cortando lenha, lá apareceu de repente uma mulher alta e bela que trazia na cabeça uma coroa de estrelas cintilantes e lhe disse “Sou a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, e tu és pobre e necessitado: traga-me tua filha, vou levá-la comigo, ser sua mãe e cuidar dela.”
 O lenhador obedeceu, foi buscar a filha e entregou-a à Virgem

Maria, que a levou consigo para o Céu. Lá a menina passava muito bem, comia pão doce e bebia leite açucarado, e seus vestidos eram de ouro, e os anjinhos brincavam com ela. Quando completou quatorze anos, a Virgem Maria a chamou e disse

18 julho 2020

Alma de Dragão


por Leandro Radrak

Muito bem, minha senhora. Sou praticamente um bardo na arte de declamar contos. Deixe-me lhe contar minha história. Ao menos a parte dela que me trouxe aqui. Serei sincero, pois não subestimarei sua astúcia. Quem é subestimaria um deus, não é mesmo? Ouça com atenção, por favor. Depois, deixarei em suas mãos o meu destino.

04 novembro 2014

A espada de São Martinho

São Martinho de Tours. Museu de Cluny, Paris.O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.


Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção a Santa Pau. Imediatamente o Conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.


Quando os encontrou, no mesmo instante arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar. Mas em pleno combate sua espada se quebrou. Não era o Conde homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

14 outubro 2014

Cinderela

por Irmãos Grimm

A mulher de um homem rico ficou muito doente. Quando ela percebeu que a morte se aproximava, chamou sua única filha ao seu leito e disse:

- Filha querida, seja boa e piedosa que o bom deus sempre lhe protegerá. Eu estarei no céu olhando pra você e nunca te abandonarei.

Dito isso, ela fechou os olhos e morreu. Todos os dias a moça visitava o túmulo de sua mãe. Ela chorava e se mantinha piedosa e boa. Quando o inverno veio, a neve cobriu o túmulo com uma manta branca e quando o sol da primavera a derreteu, o homem encontrou uma nova esposa. A mulher trouxe consigo duas filhas que eram bonitas e agradáveis de rosto, porém más e feias de coração. Começava um período ruim para a pobre moça.

- Essa pata-tonta vai sentar-se na sala de visitas conosco?, elas perguntavam. Se quer comer o pão, terá que trabalhar para ganhá-lo. Trabalhará na cozinha.

13 outubro 2014

A árvore da saúde

Contos Tradicional Dinamarquês.



Era uma vez um homem que tinha três filhos. Quando estava prestes a morrer, chamou-os e disse que a única coisa que tinha para lhes deixar era o pomar, pelo que o deviam repartir de modo que cada um ficasse com uma parte. Acrescentou que uma das árvores produzia frutos da saúde, mas absteve-se de explicar qual ou onde se situava.
Poucos dias mais tarde, expirou e os filhos prepararam-se para dividir a herança. Mas o mais novo era ainda tão pequeno que não o incluíram e repartiram o pomar em duas partes iguais. O irmão deserdado ficou apenas com a árvore solitária situada no centro do terreno. Decidiram não lhe atribuir terras, por pensarem que, se fosse precisamente aquela a da saúde alguns frutos cairiam nas áreas que lhes pertenciam.
Um dia, inteiraram-se de que a princesa do pais estava gravemente doente e o rei prometera concedê-la como esposa, além de oferecer metade do reino, a quem fosse capaz de a curar. Em face disso, os irmãos decidiram tentar a sorte. O mais velho foi o primeiro a dirigir-se ao pomar com uma cesta no braço, para colher uma peça de fruta de cada uma das suas árvores, após o que se encaminhou para o palácio. No entanto, o percurso obrigava-o a atravessar um bosque e, assim que penetrou nele, surgiu-lhe uma mulher idosa.

11 setembro 2014

A Jovem do Mar Vermelho

Contos Tradicional Finlândes.

Era uma vez uma abastada casa de campo em que vivia um camponês com os seus três filhos. Acontecia que, cada vez que ele acabava de proceder à sementeira da Primavera, surgia uma noite de tempestade estival que destruía tudo. E assim sucedeu ao longo de doze anos consecutivos. Finalmente, cansou-se da situação repetitiva e decidiu:
— Vou parar de semear. De qualquer modo, nunca obtenho nada em troca.
O filho mais velho pediu-lhe então que o deixasse cultivar as terras e obteve autorização.
Assim, o jovem adubou o campo e semeou-o. Mas surgiu a noite da tempestade estival e repetiu-se tudo o que costumava acontecer ao velho agricultor.
Na Primavera seguinte, o filho do meio pediu ao pai que o deixasse tentar a sorte. Obtida autorização, trabalhou as terras e procedeu à sementeira. Quando calculou que chegara a noite da tempestade, ficou de vigília. À meia-noite, desencadeou-se um temporal tão furioso que derrubou todas as árvores do bosque. Ele entrou a seguir na casa de banho e depois foi deitar-se. Quando de manhã se levantou, a destruição era tão absoluta como nas vezes anteriores.
Ao chegar de novo a Primavera, o filho mais jovem pediu ao pai que o deixasse também experimentar, mas este último hesitava em o autorizar.

09 janeiro 2014

Lenda de Merlin, O Mago.

 A história de Merlin é cheia de mistérios e como a sua vida é narrada principalmente por obras literárias , ou pouco valor histórico, é difícil identificar a data exata de seu nascimento

05 agosto 2013

A princesa do castelo de Wangenbourg

Num tempo longínquo morava no poderoso castelo de Wangenbourg, na Alsácia, um senhor muito encrenqueiro e de moralidade bastante duvidosa. Voltando com seus companheiros de armas de uma expedição guerreira, ele viu uma bela donzela num prado florido.

Com ramalhetes de margaridas nos braços, ela resplandecia de beleza. O senhor quis seduzi-la de todas as formas. Mas, além de bela, nossa princesa fora abençoada no nascimento por um poderoso anjo, e tudo nela era maravilhoso.
Numerosos pretendentes quiseram conquistá-la, mas como era muito jovem para casar, recusou todos os candidatos.
O senhor de Wangenbourg aplicou todos seus jeitos para conquistar essa torre invencível... E eis que, num belo dia, ela aceitou o pedido! Ele lhe prometeu só amar a ela e a não desejar outros corações. E eles foram felizes, pois malgrado as tentações da vida de grande senhor, ele respeitou a promessa.

 Mas certo dia ele começou a olhar para outras moças, e recomeçou no “mentiroso” a vida de outrora. Nossa princesa ficou fortemente magoada e até desesperada. E decidiu lavar-se da afronta na cachoeira de Nideck, que ela conhecia bem. Mas Wangenbourg distava muito de Nideck para uma delicada princesa ir a pé. No caminho, ela se feriu várias vezes nos espinheiros, nas pedras pontudas e nos galhos secos. E achava que uma chama do inferno saía do chão para queimá-la. Além do mais, a densa floresta deixava passar muita pouca luz.
Quando esgotada ela chegou no alto da cachoeira, suas pernas não conseguiam manter-se em pé. E a infeliz princesa ensangüentada caiu no vazio.
Tendo seu bom anjo visto todas as suas infelicidades, chegou como um raio e a segurou na queda fatídica.
Mas o anjo disse para si mesmo:

̶ “O que farei com uma beleza desesperada, sempre procurada pelos homens?”

E então lhe veio uma idéia luminosa:

̶ “Vou levá-la para o Céu”.

Desde aquele dia, os habitantes da região dizem que uma sombra branca dança sobre a espuma da cachoeira avisando que uma tempestade está perto.

01 agosto 2013

Sir Gawain e Lady Regnell

Um dia, o rei Artur estava caçando um grande veado branco nas cercanias do bosque de carvalhos quando ergueu os olhos e se viu confrontado por um chefe guerreiro alto forte, brandindo a espada e dando a impressão de que ia abater o rei ali mesmo. Este homem era Groiner, que disse estar querendo vingar-se pela perda de parte de suas terras ao norte para Artur. Como Artur estava desarmado, Sir Gromer demonstrou compaixão e deu ao rei uma chance de salvar sua vida.

Gromer lançou um desafio: o rei tinha um ano para voltar desarmado àquele lugar com a resposta para a pergunta: O que as mulheres desejam acima de tudo?

Se Artur respondesse à pergunta corretamente, sua vida seria poupada; caso contrário, sua cabeça seria cortada.

30 julho 2013

A lenda do Dragão e a Donzela


Baladas medievais contam que Jorge era filho de Lorde Albert de Coventry.

Sua mãe morreu ao dá-lo à luz e o recém nascido Jorge foi roubado pela Dama do Bosque para que pudesse, mais tarde, fazer proezas com suas armas.

O corpo de Jorge possuia três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço.

29 julho 2013

A Catedral Submersa

Na Bretanha, as crianças ouvem contar a lenda da catedral submersa: Era uma vez uma catedral bonita, plantada havia muitos anos na beira do mar. Era a jóia da aldeia, o povo gostava dela. Em dia de festa, mais bonita ficava, cheia de gente, e os sinos dobrando.

"Mas um dia — foi o vento? foi a maré muito forte? foram os pecados da gente que irritaram a Deus? — o certo é que o mar subiu e devorou a catedral.

26 julho 2013

Epidemia de Dança de 1518

Epidemia de Dança de 1518 foi um caso de dançomania ,ocorrido em Estrasburgo, França em julho de 1518. Diversas pessoas dançaram sem descanso por dias a fio e, no período de aproximadamente um mês, a maioria caiu morta em consequência de ataques cardíacos, derrames ou exaustão.O fenômeno começou quando uma mulher, Frau Troffea, começou a dançar incontrolavelmente em uma rua de Estrasburgo. Isto durou em torno de quatro a seis dias. Com uma semana, outras trinta e quatro pessoas haviam-se juntado a ela, e em um mês, havia aproximadamente 400 dançarinos nas ruas. Muitas dessas pessoas finalmente morreram de ataque cardíaco, derrame ou exaustão. 

25 julho 2013

Robin Hood

Robin Hood (conhecido em Portugal como Robim dos Bosques) é um herói mítico inglês, um fora-da-lei que roubava dos ricos para dar aos pobres, aos tempos do Rei Ricardo Coração de Leão. Era hábil no arco e flecha e vivia na floresta de Sherwood. Era ajudado por seus amigos "João Pequeno" e "Frei Tuck", entre outros moradores de Sherwood. Teria vivido no século XIII, gostava de vaguear pela floresta e prezava a liberdade. Ficou imortalizado como "Príncipe dos ladrões". Tenha ou não existido tal como o conhecemos, "Robin Hood" é, para muitos, um dos maiores heróis de Inglaterra.


No entanto o herói não é de fato um ladrão errante que vive em florestas. A história começa quando Robin of Locksley, filho do Barão Locksley é um cruzado e viaja com o Rei Ricardo para catequizar os hereges. Prisioneiro, ele foge e retorna a Inglaterra. No entanto, ao chegar em casa percebe que muitas coisas aconteceram. Aproveitando a ausência do Rei Ricardo, o príncipe John, o segundo herdeiro direto, assume seu trono, aumenta os impostos e mata o pai de Robin, destruindo também seu castelo. Não tendo onde morar, Robin Hood encontra um grupo de homens que moram na floresta e os lidera em uma batalha com o príncipe. Ele quer reaver sua posição nobre e também ajudar aos que se tornaram pobres graças a ganância de John.

24 julho 2013

O Jogral e a Virgem

Muitos peregrinos, vindos dos mais remotos confins da Cristandade, iam à romaria do Santuário de Nossa Senhora de Rocamador. Era gente de toda espécie, desde mendigos ou empestados até fidalgos e grandes dignitários da Igreja.

Freqüentemente misturavam-se àquela turba alguns indivíduos aloucados, galhofeiros ou poetas, que tanto entoavam uma canção, acompanhando-a com qualquer instrumento, como embasbacavam o povo com malabarismos e trabalhos de saltimbancos.

Singlar era um desses. Jovem, espalhafatoso, tagarela, mas de caráter doce, excelente no uso dos instrumentos musicais e dulcíssimo no cantar. Alto poeta, encontrava sempre, no momento exato, a palavra mais viva, mais colorida e musical para dizer as coisas.

Além disso, era devoto fiel da Virgem, e por isso fora a Rocamador. Rezou diante da imagem. Sabia, porém, que jamais poderia, com orações, dizer-lhe os sentimentos que transbordavam de seu coração.

23 julho 2013

O Arcebispo Turpin e a partida de Carlos Magno para o Céu

Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

22 julho 2013

O Frei E O Anjo

No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e não havia conventos estabelecidos, São Francisco, por devoção, se foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os quais um foi Frei Bernardo.

E seguindo assim juntos pelo caminho, acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão, disse a Frei Bernardo: “Filho, quero que fiques aqui servindo a este enfermo”.

E Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e São Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de Santiago, foi por Deus revelado a São Francisco que ele devia fundar muitos conventos pelo mundo.

Porque sua Ordem se devia dilatar e crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação começou São Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando São Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava inteiramente curado.

E no ano seguinte permitiu a Frei Bernardo que fosse a Santiago; e assim São Francisco voltou ao vale de Espoleto; e aí ficaram em lugar deserto ele e Frei Masseo e Frei Elias e alguns outros, os quais tinham muito cuidado em não aborrecer ou perturbar São Francisco em sua oração.

E isto faziam pela grande reverência que tinham e porque sabiam que Deus lhe revelava grandes coisas na oração.

Frei Elias foi um frade cheio de soberba
que acabou abandonando a
Ordem de São Francisco

Sucedeu um dia que, estando São Francisco em oração na floresta, um belo jovem, com trajo de peregrino, chegou à porta do convento e bateu com tanta pressa e tanta força por tanto tempo que os frades ficaram muito maravilhados daquele inusitado modo de bater.

Frei Masseo foi à porta e abriu-a e disse àquele jovem: “De onde vens tu, filho, que parece nunca teres vindo aqui, batendo de modo tão desusado?”

Respondeu o jovem: “E como é que se deve bater?”

Disse Frei Masseo: “Bate três vezes, uma após outra, devagar: depois espera que o irmão tenha rezado um pai-nosso e venha abrir, e se durante esse tempo ele não vier, bate; outra vez”.

Respondeu o jovem: “Tenho grande pressa, e bati com tanta força, porque tenho de fazer uma longa viagem, e vim aqui falar com o irmão Francisco; mas por ele estar agora em contemplação na floresta, não o quero incomodar.

Vai e manda-me Frei Elias, que lhe quero fazer uma pergunta, porque sei que' ele é muito sábio”.

Foi Frei Masseo e disse a Frei Elias que sé dirigisse àquele jovem: e ele se escandalizou e não quis ir; assim Frei Masseo não soube o que fazer nem o que responder àquele jovem; que, se dissesse: “Frei Elias não pode vir”, mentia; se dissesse que ele estava irritado e não queria vir, temia dar-lhe mau exemplo.

E porque no entanto Frei Masseo demorasse em voltar, o jovem bateu outra vez como a princípio; e pouco depois Frei Masseo retornou à porta e disse ao jovem: “Não observaste o que te ensinei ao bateres”.

Respondeu o jovem: “Frei Elias não quis vir a mim: vai e dize a Frei Francisco que vim para falar com ele; mas, por não querer perturbar-lhe a oração, dize-lhe que mande Frei Elias entender-se comigo”.

São Miguel Arcanjo, catedral de Bruxelas.
Fundo: galaxia em espiral NGC1309, NASA

Então Frei Masseo foi ter com São Francisco, que orava na floresta com a face erguida para o céu, e lhe deu conta da embaixada do jovem e a resposta de Frei Elias: e este jovem era um anjo de Deus, em forma humana.

Então São Francisco, sem mudar de lugar nem baixar o rosto, disse a Frei Masseo: “Vai e dize a Frei Elias que por obediência atenda imediatamente ao jovem”.

Ouvindo Frei Elias a ordem de São Francisco, foi à porta muito perturbado e com grande ímpeto e ruído a abriu e disse ao jovem: “Que queres?”

Respondeu o jovem: “Cuidado, irmão, não te irrites, como pareces estar, porque a ira tolhe o espírito e não te deixa discernir o verdadeiro”.

Disse Frei Elias: “Dize o que queres de mim”. Respondeu o jovem: “Eu te pergunto se àqueles que observam o santo Evangelho é lícito comer o que se põe diante deles, conforme o que disse Cristo aos seus discípulos: e te pergunto ainda se é lícito a algum homem obrigar a qualquer coisa contrária à liberdade evangélica”.

Respondeu com soberba Frei Elias: “Sei bem disto, mas não te quero responder; cuida de teus negócios”.

Disse o jovem: “Saberei melhor do que tu responder a esta pergunta”.

Então Frei Elias, furioso, fechou a porta e retirou-se. Depois começou a pensar nesta pergunta, a duvidar de si mesmo e não a sabia responder porque era vigário da Ordem e tinha ordenado e feito uma constituição, contra o Evangelho e contra a ordem de São Francisco, de que nenhum frade da Ordem comesse carne; por isso a dita pergunta era expressamente contra ele.

Pois, não sabendo explicar por si mesmo e considerando a modéstia do jovem e porque este dissera saber responder à pergunta melhor do que ele, volta à porta e abre-a para pedir ao jovem resposta à pergunta: mas se tinha ido, porque a soberba de Frei Elias não era digna de falar com o anjo.

Isto feito; São Francisco, a quem tudo era por Deus revelado, retornou da floresta e com veemência, em alta voz, repreendeu Frei Elias, dizendo:

“Mal fizeste, Frei Elias soberbo, que expulsaste de nós os santos anjos que nos vêm ensinar. Digo-te temer muito que a tua soberba te faça acabar fora da Ordem”.

E isto sucedeu como São Francisco predissera; porque morreu fora da Ordem.

No mesmo dia e à mesma hora em que o anjo partiu, apareceu na mesma forma a Frei Bernardo, o qual voltava de Santiago e estava à beira de um grande rio, e saudou-o em sua língua, dizendo: “Deus te dê a paz, ó bom irmão”.

E maravilhando-se muito Frei Bernardo, e considerando a beleza do jovem e a saudação feita em sua própria língua, com cumprimento pacifico e semblante alegre perguntou-lhe: “Donde vens tu, bom moço?”

Anjo. Comillas, Cantabria, Espanha

Respondeu o anjo: “Venho do convento onde vive São Francisco e fui ali falar com ele; e não pude, porque estava na floresta contemplando as coisas divinas e não o quis incomodar. E naquele convento residem Frei Masseo, Frei Egídio e Frei Elias; e Frei Masseo me ensinou a bater na porta como fazem os irmãos, mas Frei Elias, por não ter querido responder à questão que lhe propus, arrependeu-se depois e quis ouvir-me e falar-me e não pôde”.

Após estas palavras, disse o anjo a Frei Bernardo: “Por que não passas à outra margem?”

Respondeu Frei Bernardo: “Porque temo o perigo pela profundidade da água que vejo”.

Disse o anjo: “Passemos juntos, não tenhas medo”. Tomou-lhe a mão e, num abrir e fechar de olhos, pô-lo na outra riba do rio.

Agora Frei Bernardo conheceu que ele era anjo de Deus, e, com grande reverência e gáudio, disse em voz alta: “Ó anjo bendito de Deus, dize-me como te chamas”.

Respondeu o anjo: “Por que perguntas meu nome, o qual é maravilhoso?”

E dizendo assim o anjo desapareceu e deixou Frei Bernardo muito consolado, de tal modo que toda aquela viagem fez com alegria, e tomou nota do dia e da hora em que o anjo lhe aparecera.

 E, chegando ao convento onde estava São Francisco com os sobreditos companheiros, narra-lhes em ordem todas estas coisas, e conheceram com certeza que aquele mesmo anjo tinha aparecido no mesmo dia e na mesma hora a eles e a ele e deram graças a Deus. Amém. 

19 julho 2013

As façanhas de Beuvon

Os sarracenos ocupavam, em outros tempos, grande parte da Provença. A impiedade deles chegou a tal ponto, que Deus decidiu extirpá-los dali para sempre.

Escolheu como instrumento de sua santíssima vontade um herói chamado Beuvon. Educado no temor de Deus e no ódio aos infiéis, era um cavaleiro puro e piedoso, e seu coração estava cheio de valor.

Num dia de verão, cansado pelo calor, adormeceu à sombra de uma árvore. No sono, teve uma maravilhosa visão. Apareceu-lhe São Pedro, e lhe disse:

— Levanta-te, sem demora nem vacilação, e marcha contra os sarracenos, que por sua impiedade excitaram a ira de Deus. Tu os expulsarás de Peyrempi. Uma vez tomada essa fortaleza, não te será difícil persegui-los, até fazê-los desaparecer do país.

Beuvon se levantou e tomou o caminho de Peyrempi. Durante sua marcha encontrou muitos soldados, que tentou convencer a segui-los em sua cruzada, mas quase todos julgavam que era uma loucura marchar contra a cidade sarracena mais fortificada. Só conseguiu três soldados para acompanhá-lo, ante o assombro dos demais. Assim prosseguiram, até chegar perto da cidade.

Quando os sarracenos viram chegar os quatro cavaleiros, pensaram que eram loucos, e sem preparar-se para a defesa, começaram a zombar. Beuvon e seus companheiros se ajoelharam e rezaram com fervor.

Invocaram a Santíssima Virgem, e imediatamente veio o auxílio prometido por São Pedro. À medida que as palavras das orações evolavam de seus lábios de cavaleiros, caíam flechas do céu sobre os sarracenos. Foram tantos os mortos e feridos, que os sarracenos aterrorizados correram a se proteger dentro dos muros da fortaleza.

Beuvon e seus companheiros levantaram-se e marcharam até a fortaleza. Mas a ponte levadiça já tinha sido levantada, e um profundo fosso que rodeava as muralhas impedia os cavaleiros de chegar até os inimigos.

Beuvon aproximou-se do fosso, e de joelhos começou a rezar. No mesmo instante apareceu de maneira sobrenatural uma ponte, pela qual entraram os quatro guerreiros na fortaleza inimiga. Em pouco tempo o entusiasmo de Beuvon e de seus companheiros exterminou os infiéis. Mas Beuvon, cheio de coragem e piedade, perdoou os inimigos que queriam ser batizados na Fé Católica.

18 julho 2013

Frei Pacômio – O monge que voltou 400 anos depois

Em princípios do século décimo, vivia num convento de beneditinos um santo religioso, chamado frei Pacômio, que não podia compreender como os bem-aventurados não se cansam de contemplar por toda a eternidade as mesmas belezas e gozar dos mesmos gozos.

Um dia mandou-o o Prior a um bosque vizinho, para recolher alguma lenha. Foi com gosto, mas mesmo no trabalho não o largavam as dúvidas.

De repente ouviu a voz de uma avezinha que cantava maravilhosamente entre os ramos. Ergueu-se e viu um animalzinho tão encantador, como jamais vira em sua vida. Saltava de um ramo para outro, cantando, brincando e internando-se na selva.

Seguiu-o frei Pacômio, todo enlevado, sem dar-se conta do tempo nem do lugar.

A certa altura a avezinha atirou aos ares o último e mais doce gorjeio e desapareceu. Lembrando-se então de seu trabalho, frei Pacômio procurou o machado para voltar ao convento. Mas — coisa estranha! — achou-o enferrujado. Quis pegar o feixe de lenha que ajuntara, mas não o encontrou.

— Alguém mo terá roubado? — pensou.

Pôs-se a andar, mas não encontrava o caminho. Chegou, afinal, à beira do bosque, mas não encontrou o mato que tão bem conhecia. Ali estava agora um campo de trigo, em que trabalhavam homens desconhecidos. Perguntou a um deles o caminho do mosteiro, pois de certo se havia extraviado. Todos olharam para ele com surpresa, e em seguida indicaram-lhe o mosteiro.

Chegou afinal ao mosteiro. Mas — grande Deus! — como estava mudado! Em lugar da casa modesta de sempre, viu um edifício magnífico ao lado de uma grandiosa capela. Intrigado, bateu à porta; um irmão desconhecido veio abrir.

— Sois novo aqui — disse-lhe Pacômio. — Eu venho do bosque aonde me mandou esta manhã o Prior D. Anselmo, para buscar lenha.

Admirado, o porteiro deixou ali o hóspede e foi avisar o Prior que estava na portaria um monge com hábito velho, barba e cabelos brancos como a neve, perguntando pelo Prior Anselmo.

O caso era curioso. O Prior, abrindo os registros do convento, descobriu o nome do Prior Anselmo, que ali vivera quatrocentos anos antes.

Continuou a ler, e achou nos anais daquele tempo o seguinte:

— Esta manhã frei Pacômio foi mandado buscar lenha no bosque e desapareceu.

Chamaram o hóspede e fizeram-no entrar e contar a sua história.

Frei Pacômio narrou o caso de suas dúvidas sobre a felicidade do paraíso, e o Prior começou a compreender o mistério.

Deus quis mostrar ao pio religioso que, se o canto de uma avezinha era capaz de encantar-lhe a alma por séculos inteiros, quanto mais a formosura de Deus há de embevecer os bem-aventurados por toda a eternidade, sem que eles jamais se cansem.

10 julho 2013

O Cavaleiro Verde (Parte 3)

Na manhã seguinte, bastante antes do amanhecer, todo o pessoal do castelo levantou-se, selou seus cavalos e amarrou os alforjes. O próprio nobre castelão preparou-se para a montaria, comeu rapidamente um bocado, e foi para a missa. Antes que clareasse o dia, èle e seus homens estavam a cavalo. Depois, os cães de caça foram chamados e emparelhados, três notas curtas foram sopradas nas trombetas, e cem caçadores seguiram para a caça. Para os seus postos dirigiram-se os espreitadores de gamos, os cães foram largados, e a caça começou, jubilosamente.
Alvoroçados pelo clamor, os gamos correram para as alturas, mas depressa foram forçados a retroceder. Permitiam que os veados e os cervos passassem, mas as cervas e corças eram obrigadas a recuar para a sombra. Ao correrem velozmente eram alvejadas pelas flechas dos arqueiros. Os cães e os caçadores, aos altos gritos, seguiam-nas, e as que escapavam às flechas eram mortas pelos cães. O senhor prosseguiu alegremente na caçada que durou até a aproximação da noite.
Durante todo esse tempo, Sir Gawayne tinha estado na cama, e só acordou ao ouvir os ladridos dos cães de caça, tornando a dormitar. Finalmente, sentiu que lhe batiam à porta, e um donzel entrou, pedindo-lhe que se levantasse e viesse fazer a refeição com sua senhora. Imediatamente êle se levantou, vestiu-se, colocou o belo anel em seu dedo, o anel que seu hospedeiro lhe dera, e desceu para cumprimentar a castelã.

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