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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Novelo (Continuação I)

‘Tio, a Alice tem medo do gato que desaparece. Eu também tenho.’ Joel olhou a capa e deparou-se com o odioso nome de Carol, Lewis Carol. Folheou mais algumas páginas não acreditando em tamanha futilidade para tão pouca idade. E jogou o livro ao chão.
‘Moleque estúpido. Lê João Cabral de Melo Neto e aprende alguma coisa nessa tua vida ridícula’. Ao fazer isso, ainda não achando o bastante, acerta um safanão na testa do menino. Apenas um pequeno menino que brinca com o que os adultos racionais e inteligentes preferiram ignorar até o fim de suas existências, até o momento em que clamarão por Cristo Salvador. Por que não mais em nada acreditaram em suas vidas, na hora do retorno à Mãe-Terra clamam por sua providência?

E Joel se fora. E fora feliz em seu carro novo, acelerando fundo, fechando outros motoristas.
Ao chegar em casa, tarde da noite, ele vê um estranho pássaro negro no topo de seu telhado. O pássaro é grande e Joel pega um velho binóculo que havia em seu porta-luvas. Ele pensa se tratar de um urubu, mas qual não é sua surpresa quando se depara com um corvo negro.
Joel diz a si mesmo que isto não pode ser verdade. O corvo então agita suas asas. Joel não quer admitir, mas está com medo. Muito medo. Apavorado, esquece-se de trancar a porta do carro. ‘Que se dane. Não há maneira de ninguém vivo entrar aqui. Não existem corvos no Brasil. Isso é o cansaço. Preciso de um bom banho.’
E assim Joel fez. Tomou seu banho. Antes deu o costumeiro beijo na testa em sua esposa, jantou, vestiu seu pijama amarelo e dormiu.
Joel teve um sono pesado naquela noite. Em momento nenhum se debatera, mas seu espírito se agitara dentro do corpo.
Ele viu um homem de baixa estatura que trajava roupas cinzas caminhando por um longo caminho subterrâneo. Este homem portava uma máscara de oxigênio, e uma bengala branca. Parecia usar-na como uma varinha, manejando-a entre os dedos. Ele tateava as paredes do corredor como se procurasse algo. Dado momento, percebeu o homem escavar a parede. Não sabia por que nem como ele estava lá. Apenas sabia que estava. E aquele lugar era de certa forma conhecido por Joel. Será que ele poderia realmente lembra-se disto? Será que Joel já vira este estranho? Quem era aquele exótico andarilho das trevas a caçar tesouros numa velha mina aparentemente abandonada? Que seriam tais tesouros?
Talvez nem mesmo Joel poderia saber.
O homem, juntamente com seu cenário, sumiu. Joel sentiu-se; seu corpo ou sua alma, não saberia dizer; afundar numa camada de gel, ou um véu. Essas sensações eram novas para ele. Porque Joel não sonhava. Não sabia qual o sabor de uma nuvem de chuva, que as estrelas são bolas de luz frias e explodem ao serem tocadas, que a lua torna-se cheia quando grávida do rei-sol.

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