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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Novelo (Final)

O silêncio sepulcral deste momento fora irrompido por ventosas. Mais ventosas. Joel empurra o homem e corre a descer as rampas novamente. O homem pouco se importa. Joel se sente um rato fugindo todo o tempo preso num labirinto a espera do Minotauro. Ele chega ao andar abaixo e se dirige ao lado esquerdo do corredor, na tentativa de esconder-se numa das salas de aula.
Quando avista a primeira delas, Joel vê o homem saindo de lá. Um mudo grito de terror ele dá. O homem aponta sua bengala para Joel. Ele estranhamente parece olhar o íntimo de sua alma. Porque os olhos são as janelas da alma. ‘Ô, seu arrombado, você sabe quem sou eu, sabe?’ Joel vê a bengala tomar a forma de um revólver. Branco. O homem nada diz. Dá um tiro em sua mão esquerda. Joel chora. Antes ele vê o homem, com um gestual como num passe de mágicas, transmutar o cenário onde estavam: o chão é todo feito em xadrez, com grandes pedras brancas e negras; há pilares relembrando a arquitetura grega; há um altar com um trono atrás do homem; há espadas e armaduras encostadas nas paredes. O homem traça com sua bengala a testa de Joel e a marca com um heptagrama.

Joel olha para os lados. Todos eles. Vê diversos selos de Salomão espalhados fora do piso de xadrez. Mas selos de Salomão não têm serventia para ele neste momento. Ele encontra uma espada, que a muito custo consegue tirar do apoio. O homem vem em sua direção, andando como um esgrimista. Logo Joel percebe o que ele quer. E parte com sua fúria para cima do homem, que se esquiva. Lugubremente o homem sempre evita os movimentos de Joel. Ele sabe que não pode vencer.
Joel pensa em correr. O homem parece ler seus pensamentos. Ou lia seus sonhos? Impossível dizer. O homem o ataca. Joel não se defende e solta sua espada. O homem dá severos tapas em sua face. Joel choraminga. Como uma pequena criança quando apanha injustamente. O homem o atira ao chão e o chuta em suas nádegas.
Joel levanta e corre. Não sabe aonde foram parar os insetos. Ele não se importa. Tenta correr em direção às rampas de acesso. Desta vez quer ir para baixo. Quer sair da universidade. Mas o homem voa às suas costas, derruba-o ao chão, joga o peso de seu corpo contra o corpo de Joel amortecendo a queda.
Num ímpeto de fúria, e coragem; algo raro por parte de Joel neste episódio; ele enfrenta o homem da máscara. ‘Qual é a tua, ô cara? Se esconde por trás desta máscara. Mostra a cara, meu irmão, tá com medo?’. Algo na mente de Joel o dá a impressão de que o homem surpreendeu-se com tamanha racionalidade diante de uma situação tão extrema.
O homem tira sua máscara e Joel o vê sacudindo seus longos cabelos negros. Aos poucos os cabelos espalham-se para mostrar o rosto deste homem tão macabro. Ele é um jovem. Dezesseis, dezoito, vinte anos. Joel não poderia saber. Os véus nublaram sua mente. Mas o corpo transmutara-se num pássaro. Com penas negras. Por todo o corpo deste jovem homem. Mais uma vez Joel grita. Seu horror era tamanho que ele se atirou ao chão. E gritava como se houvesse perdido a sanidade. O homem, agora com corpo de pássaro, dá outros severos tapas na face de Joel. Ele, cansado de tanto desespero, sofrimento, dor, angustia, suplica para que isto tudo termine.
O homem traz na palma da sua mão um símbolo onírico. Ele tenta esfregar na testa de Joel. Tomado de pavor, Joel afasta a mão do homem e, no mesmo instante em que projeta suas mãos contra o peito dele, promove o mesmo ato em seu quarto.
Joel acorda sobre-saltado. Respira ofegante repetidas vezes. Abre os botões de seu pijama amarelo. Toma o café frio que está em cima do criado mudo. ‘Maria, acorda Maria, eles voltaram.’ ‘Eles quem, Joel?’ ‘Eles, os besouros azuis...’
Mesmo após esse episódio a personalidade de Joel continuou a mesma. Ele era velho demais para mudar. Até mesmo alguns pontos de suas características foram reforçados, porque ele não poderia demonstrar traços de derrota. Mas ainda assim, quando a noite chegava, e o vento assobiava suas melodias lânguidas, as corujas emitiam seus grunhidos de medo, os morcegos quase derrubavam-no ao chão, Joel sabia que estava na hora de enfrentar sua cama, seus medos, seus sonhos. Sabia que Ele estaria lá, esperando por ele, com sua máscara de oxigênio, com sua bengala branca, com sua trupe de insetos gigantes. Ansiosos por brincar novamente.


Rodrigo Garcez Martins

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