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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Deuses Entre Nós

Por Jefferson Lemos

“Pois não há morto que fique em repouso eterno, E com imensa idade, poderá finar-se a morte.”
-Trecho do Necronomicon

Em sua morada em R’lyeh, morto Cthulhu espera sonhando, e desejo, do âmago do meu ser, que ele nunca acorde.

Assim como a água em um rodamoinho, eram meus pensamentos, convergindo para um vórtice de maus presságios emitidos por meu cérebro, que sabia, em forma de imagens etéreas e desconexas, que aquilo iria acontecer. No final, acho que iria acabar acontecendo de qualquer maneira.

Os acontecimentos perduram em minha memória num ciclo infinito de repetições. São vívidas as lembranças, ainda mesmo agora, depois de tanto tempo do acontecido. Aqui as horas são desarmônicas, mais preguiçosas do que lá fora, onde os dias duram um tempo de um dia.
Sentado nessa areia negra e repleta de conchas, fito o por do sol, esperando um final inevitável para minha condição. Não sei dizer ao certo onde estou, mas se tenho certeza de uma coisa, é de que ajuda não chegará aqui. Não nos jardins de seu santuário.
Essas recordações que me acometem sempre me carregam para o começo de tudo, quando entrei naquele navio, partindo para Brasil. Mesmo antes do embarque, a criatura já havia se apoderado de meus sonhos. Lembro-me que foi por volta de um mês antes daquele dia. Os devaneios transportavam-me de tal forma, que eu acordava suado e com calafrios percorrendo todo o corpo.

No começo, era apenas escuridão. E então, de um dia para o outro, houve luz.
Sentia meus pés bailando com o furor das águas que encharcavam o casco e o convés. Descobri que me encontrava em um navio, repleto de homens desesperados, gritando palavras incoerentes. À volta, a densa torrente que era despejada do céu criava um manto de brancura, como uma névoa, impossibilitando a visualização do que vinha adiante.
As escarpas surgiram tão inesperadas quanto a tempestade. Encarando o paredão de rochas negras, que se dispunham austeras a minha frente, fechei os olhos e esperei o impacto. Em minha mente, no negrume, tive o descontentamento de observar uma grotesca imagem em forma de mão, deslocando-se no espaço infinito entre o mundo e o cosmos. Rasgando o fino véu que cobria meus olhos mortais e atravessando com um grito que me gelou o sangue, como se ele já não estivesse frio o suficiente.
Acordei sentindo a pressão do choque contra o rochedo. Meu coração pulsava em ritmo acelerado e descompassado. Ainda podia sentir os tentáculos esmeraldas se enroscando em meu corpo e sugando minha essência. O suor escorria como a água esparramada no chão do navio. Palavras profanas e brutais ressonavam nos ouvidos, acompanhadas de tambores que não conseguia ver, mas podia sentir. A vibração de meu crânio revelava o cântico que me pareceu sujo, antigo e impronunciável. Elas diziam algo parecido com isso:

“Ph’ngluimglw’nafh CthulhuR’lyeh wgah’naglfhtagn“

Eu não sei porque, mas assim que acordei transcrevi as maldições em um pedaço de papel, e as carreguei no meu bolso, para onde quer que eu fosse. Necessárias elas não seriam, assim pensei, mas uma parte fria, sombria e adormecida, falou mais alto dentro de mim, me impelindo a cometer tal ato. Durante as semanas que se passaram os pesadelos tornaram-se corriqueiros e mais sólidos. Era como se eu pudesse tocá-los, como se um portal entre o real e o onírico se fizesse presente em meus devaneios, permitindo-me sentir os momentos de terror em que mergulhava quando adormecia. No dia em que embarquei na expedição comandada pelo capitão Joseph Flint, meus temores se ampliaram.
Diferente dos pesadelos com um navio, naquele dia sonhei com terra firme. Negro como a noite e repleto de conchas prateadas era o chão da praia em que me encontrava. Um salão titânico e imponente erguia-se a minha frente. A fronte esculpida em pedras de sal era ornamentada de pérolas e outros minerais que não conhecia. Em meu sonho, caminhei com a areia grudenta atrasando minhas passadas, como pequenas mãos se formando e agarrando meus pés, impedindo que viandasse e adentra-se naquela morada cósmica,da qual irradiava um pavor pungente e repelente. Em minha sã consciência, nunca teria adentrado em um local como aquele, mas nos sonhos agimos de forma diferente. Como um imã magnético atraindo uma barra de ferro, fui atraído para o salão.
Ainda mais impressionante era o interior. Castiçais emitiam luzes tão brilhantes como estrelas em uma noite de verão. O teto apresentava uma construção em formato de infinitas abóbodas, onde cada uma se assemelhava a um universo, e seres monstruosos e indescritíveis passeavam entre as constelações. Meu peito assombrava-se e afundava-se ao apreciar tal visão. Enquanto sentia a energia poderosa e horripilante que as massas disformes acima de mim emitiam,ouvi vozes que me tiraram de meu estupor. Mais a frente, onde somente havia trevas, a luz de uma fogueira projetou seu brilho sobre os pilares do templo. Aproximei-me do fogo e antes mesmo de estar próximo o suficiente, pude notar que os pilares, na verdade, não eram pilares. O som gutural e mítico de suas vozes reverberou pelo ambiente e chegou aos meus ouvidos, onde em um cântico infernal e galáctico, pude ouvir os fonemas que já há algum tempo conhecia.
“Ph’ngluimglw’nafh CthulhuR’lyeh wgah’naglfhtagn“

E em seguida as vozes mudaram para algo que a mim era compreensível.

“O morto Cthulhu espera sonhando”
“Sonhando ele espera pelo dia de seu retorno”
“O Sacerdote esmeralda traz consigo o poder, e dele os antigos hão de renascer”

Senti um misto de repulsa e medo. Embrenhado em minhas entranhas, o horror desabrochava, impelindo o vômito e fazendo-me despejar um líquido vermelho como sangue. O fluido derramou-se sobre uma calha no chão, e escorreu em um pequeno declive que se fez visível apenas naquele momento. A descida convergia para a fogueira no centro do círculo das criaturas horripilantes. Labaredas esverdeadas alcançaram o infinito do cosmos sobre minha cabeça, e então se extinguiram.

O ambiente tingiu-se de esmeralda, e duas orbes de escuridão e horror surgiram a minha frente. Ouvi o abrir de asas ressoando pela atmosfera, cortando o ar e silenciando o vento. Enormes e maciços tentáculos enroscavam-se freneticamente a minha frente, digladiando-se, buscando sair do caos abismal que os entornava. As pontadas em minha mente eram sinais de que ela estava fraquejando a tais temores que estava sendo imposta. Um grande ruído então me arrebatou, jogando-me ao chão e me fazendo gritar. Ouvi um som que jamais poderia ser descrito em palavras, como se a natureza ou os céus expressassem seu vocábulo através da escuridão milenar.

Acordei com o balanço do navio jogando-me para fora da cama. Desde o primeiro instante os pesadelos haviam me incutido um terror diferente e mais aguçado. Mas depois do que havia acontecido naquela noite, eu nunca mais voltaria a dormir bem novamente. E como se já não fosse o suficiente, ainda teria os sentimentos ampliados pelo que veria no Brasil.

Era uma tarde ensolarada quando atracamos no sudeste do país. Eu não tinha embarcado com nenhum motivo aparente. Minha única intenção era explorar e conhecer novas culturas, aproveitando-me da oportunidade oferecida por meu amigo Capitão. Permanecemos por apenas uma semana, realizando negociações e transações de mercadorias. No entanto, o tempo em que nos hospedámos foi o suficiente para incutir uma pontada a mais de loucura em minha cabeça tomada pela febre dos pesadelos.
E foi justamente na manhã da partida, que tive a desagradável surpresa de me deparar com um dos nativos da região. Era um homem escravizado, cuja pele vermelha e os cabelos negros chamaram minha atenção. Entretanto, não foi necessário nada para que o próprio me notasse, pois já vinha me fitando à distância, com seus olhos de ônix, aguçados e inquisitivos. Este homem fazia o carregamento do navio, e ao passar por mim, pude ouvir as palavras sussurradas ao vento.
“Ph’ngluimglw’nafh CthulhuR’lyeh wgah’naglfhtagn“

Um calafrio percorreu meu corpo fazendo um circuito completo. Até mesmo o couro cabeludo ficou eriçado tamanho o perigo que senti ao ouvir aquela frase de maldições. Observei o nativo subindo a rampa e o aguardei enquanto descia, mas, nesse momento, ele já aparentava ter se esquecido completamente de mim. Caminhou de cabeça baixa e não me dirigiu o olhar. Desatracamos naquele mesmo dia e navegamos semanas a fio, sem qualquer problema aparente. Durante esse período, meus pesadelos continuaram constantes, mas inofensivos fora do mundo onírico.

Até o momento em que minha tormenta tornou-se real. Naquela noite, em especial, o sonho do navio havia voltado. O mesmo paredão ergueu-se a minha frente, e tive a sensação do estrondo do casco desfazendo-se. Mas ao contrário dos outros dias, não acordei naquele instante. Abri os olhos e tudo era escuridão. Meu corpo flutuava em meio ao nada e me senti sendo levado às alturas. Lá dos céus, o colorido azul tempestuoso do mar se fez perceber aos meus olhos. De dentro dele, uma aura negra e imunda ergueu-se formando um triângulo no meio do oceano. Esse triângulo embocou o interior do qual delineava, causando uma úlcera de caos em alto mar. Então, minha visão tornou-se turva novamente e senti meu corpo despencar.

Acordei atingindo o chão do convés mais uma vez, mas naquele momento a atmosfera era outra. Ouvi os gritos desconexos dos homens no lado de fora. Trovões retumbavam e gritavam pelo ar, propagando um barulho ensurdecedor. Do jeito que estava, precipitei-me para fora. O véu branco que a chuva criara, tornava a visualização impossível. O vento nos açoitava em fortes rajadas, e os relâmpagos iluminavam os céus formando uma teia de luz, seguidos do som bruto e primordial. Mas o que veio a seguir levou-me de volta aos meus sonhos. Escutei o barulho de tambores à distância, alternando com o ribombar dos trovões. Os homens que corriam naquele momento pararam para observar. Diferente do que vivi nos sonhos, as escarpas não se transpuseram em nosso caminho. Elas surgiram ao longe, acompanhadas dos batuques incessantes, que só aumentavam conforme avançávamos. A chuva diminuiu brusca e inesperadamente, tornando o caminho claro e visível. E ali pude ver uma ilha erguendo-se do mar. O templo dos meus sonhos também se encontrava lá, e as pilastras agora se encontravam do lado de fora, assentadas sobre uma areia negra, entoando o cântico maldito que preenchia meus pensamentos. A fogueira gigantesca lançava labaredas infinitas ao céu, libertando um horror Antigo e perturbador. A loucura acometeu todos os homens que observaram a cena, mas fui o único a permanecer são.

Os marinheiros rasgavam a própria carne e dispersavam-se como insetos, correndo para todos os lados em grandes ondas. Aos poucos, foram se jogando ao mar, enquanto incapaz de me mover, apenas observei, ouvindo instruções de uma voz milenar que ecoava em meus pensamentos. Vi surgir do mar tentáculos gigantescos, comprimindo o barco em um aperto que me fez despertar. Sem pensar, corri até meus aposentos e retirei o velho papel que ainda guardava no bolso. As palavras do rito infernal corriam em meus sonhos, mas eu era incapaz de pronunciá-las sem ajuda da leitura. Tomei a nota nas mãos e comecei a pronunciar em voz alta e repetidas vezes “Ph’ngluimglw’nafh CthulhuR’lyeh wgah’naglfhtagn“. E mais alto, e mais alto e cada vez mais alto, excedendo os limites que eu julgava ter.

Os tentáculos apertaram-se e senti uma grande sombra cair sobre os restos do navio onde eu me encontrava. Depois, me lembro de cair e, então, escuridão.

Acordei jogado nesta praia perdida entre o nada e o intangível. Atrás de mim, o templo titânico ergue-se imponente e soberano. As palavras que saíram de minha boca selaram meu destino e me ligaram à danação eterna imposta por este lugar de poderes ocultos e inimagináveis. Não tenho dúvidas de que a própria entidade tenha me poupado. Mas Cthulhu é impiedoso e eu pude comprovar isto com meus próprios olhos.
Que Deus tenha piedade de minha alma e encurte meus dias de punição, pois já não suporto ouvir a mesma história contada por minha própria boca milhares e milhares de vezes. Desde que cheguei aqui, o sol nunca se pôs, e o crepúsculo dos Deuses há de um dia cair sobre a terra dos homens, quando o sacerdote despertar e reunir seus súditos para reinar. Como eu sei disso? Não faço a menor ideia. Mas Ele ainda me visita em meus sonhos, e tenho medo de que possa me usar. Aguardo minha morte, e começarei minha história enquanto espero, mais uma vez.

Em sua morada em R’lyeh, morto Cthulhu espera sonhando, e desejo, do âmago do meu ser, que ele nunca acorde…

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