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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Missão de Guerra - Primeira Parte - (Continuação l)


Depardieu acordou na praia, a armadilha havia funcionado perfeitamente. Ele olhou ao redor, procurando mais sobreviventes. Nada encontrou. Olhou para si, estava inteiro. “Deveria ter entendido antes que eram duas embarcações”, pensou, “O poder de fogo deles foi eficiente, porém derrubei um deles, à custa da minha embarcação,”. Começou a caminhar pela praia, sua pólvora não prestava mais, nenhuma arma de fogo, apanhou a sua espada. “Podia ser pior”, pensou, “e poderia ter sido melhor”. Olhou para o mar, percebeu destroços do seu navio à deriva. Fitou o horizonte, procurando pelo navio covarde restante, nada viu. “Permanecendo aqui”, pensou, “serei alvo fácil”. Adentrou a floresta.
A mata era densa, difícil de caminhar, mas ele a cortava mesmo assim.
“Como estará a tripulação? Espero que tenham sobrevivido. Não havíamos marcado um ponto de encontro, mas, se mais alguém sobreviveu e ainda não foi capturado, deve estar na praia ou à espreita como eu”.
De súbito, Depardieu ouviu um barulho na floresta. Levou a mão ao punho de sua arma. Manteve-se escondido. Percebeu um pequeno grupo de soldados franceses rebeldes, aqueles a quem ele deveria dominar. “Estão procurando por sobrevivente, mas eu começo a ter as minhas dúvidas”. Ele escutou um barulho à sua retaguarda, tentou virar-se, porém foi inútil. Um tipo de punhal afiado, feito de pedra, tocou o seu pescoço.
– Você fede como os demônios brancos franceses! – disse uma voz em português, porém com um estranho sotaque.
– Calma. – respondeu Depardieu na mesma língua com dificuldade, agora vendo a tropa rebelde francesa à uma distância segura.
À sua frente, surgiu uma mulher linda, porém completamente diferente de tudo o que ele já havia visto, era uma nativa da terra. Ela mal cobria o seu corpo. Seus braços e pernas denotavam a sua força, assim como o abdômen. Seu olhar, coberto por uma estranha pintura, o fitou.
– Você exige demais de nós. – respondeu ela, também falando em português. – Seu povo tem agredido e maltratado a todos que tem encontrado.

– Aquele não é o meu povo. – respondeu.
“Maravilha! Caí da panela para o fogo!”. A estranha faca coçou mais uma vez o seu pescoço. Depardieu observou a mulher e o guerreiro às suas costas. “Isso tem que mudar”. Depardieu rapidamente agarrou a mão de seu algoz, puxando-o para frente. O guerreiro indígena perdeu o equilíbrio, saindo de meio às folhagens, caindo sobre as costas do francês, alavancando-o em seguida para a sua frente, derrubando o selvagem de costas no chão, desarmando o seu “punhal” e mirando em sua face. Qual não foi a surpresa ao ver um punho feminino correr em direção à sua face, jogando-o para trás como se um boneco fosse. “Que força!”. Depardieu rapidamente levantou-se.
– Se você a considerou forte, – observou o selvagem, ainda falando em português, parecendo ler os seus pensamentos e levantando-se rapidamente, com um tacape preso à cintura. – Não gostaria de experimentar a minha força!
O selvagem parecia descomunalmente mais forte. “Bom”, pensou enquanto levava a mão à sua espada, “não vejo alternativa”. Sacou a sua arma. O indígena não esperou posição de combate, lançando-se sobre o francês. Depardieu mal conseguiu enxergar o momento em que o seu tacape fora sacado, partindo de baixo para cima, golpeando o seu queixo e jogando-o para trás. Depardieu quase perdeu os sentidos e mal teve tempo de ver que o selvagem já estava sobre ele, efetuando um novo ataque. Só houve um segundo para que se desviasse para o lado, nunca havia enfrentado um guerreiro tão rápido e forte. Afastou-se da maneira que lhe era possível, rolando no chão e ajoelhando em seguida, o selvagem não dava abertura, sequer para respirar. A espada de Depardieu cortou o ar com uma mescla de técnica e instinto, quase sem ver os movimentos do selvagem, sua espada rasgou o peito do guerreiro, emparelhando a luta e retendo o ataque.
O índio parou, raciocinou uma nova abertura para um novo ataque. Depardieu ergueu a sua lâmina. “Não foi para isso que eu vim”!
– Eu não estou aqui para lutar contigo! – gritou Depardieu em um português fraco, o indígena ignorou completamente a sua frase, avançou. O francês desviou-se do ataque, pronto para investir, porém o selvagem já atacava novamente, só houve tempo de bloqueá-lo.
– Seu povo tem atravessado as águas para oprimir minha nação! – gritou em sua língua nativa. – E você não fará o mesmo!
Depardieu observou à volta. A formosa mulher apenas observava. “Eles falaram em português, como eles sabem se expressar nessa língua?”. Depardieu segurou o tacape, ainda bloqueado por sua espada, desferindo um soco com o punho de sua lâmina, descendo o fio de seu aço em seguida, enquanto se afastava, cortando a face do adversário. Ambos se encararam.
– Estou impressionado que ainda esteja vivo após receber o meu primeiro golpe! – exclamou o selvagem na língua que o francês parecia entender. – Mostra-se um guerreiro resistente e habilidoso, diferente dos demais!
O queixo de Depardieu sangrava com força, rasgado pelo tacape. O selvagem tinha o seu peito e o seu rosto cortados. Ambos ofegavam. “Que tipo de guerreiro é esse? Ele é extremamente forte, disposto a entrar em um luta de vida ou morte como se nada fosse. Já enfrentei todo tipo de adversário, mas nada comparado a isso”.
De súbito, o selvagem pareceu sumir à sua frente. “Onde ele está?”. Sentiu uma sombra vinda de baixo. “Como pode se mover tão rápido?”, o golpe do selvagem veio de baixo para cima, Depardieu não conseguiu se defender, atacando também, por instinto, com uma possível joelhada. Ambos acertaram os seus golpes, jogando-os em direções opostas. O seu golpe acertou o selvagem na altura do queixo, enquanto o tacape veio com menos força contra a sua cabeça. A bela selvagem observava a luta, agora demonstrando surpresa com tamanha habilidade do guerreiro francês, diferente de todos os outros que já haviam enfrentado desde então.
Depardieu levantou-se tonto, quase perdendo os sentidos, seu queixo sangrava. O selvagem quase havia quebrado o pescoço com a joelhada, forçando a nuca para trás, levantou-se, agora demonstrando um pouco de fadiga. “Eu tenho que desarmá-lo de alguma forma”, pensou Depardieu. Ambos estavam ainda mais ofegantes. Então, lentamente, Depardieu controlou a sua respiração. O índio soltou mais um grito de guerra e avançou. Depardieu também seguiu em frente. O francês golpeou com toda a força que tinha, mirando o tacape. A arma indígena foi cortada ao meio, mas isso não impediu que sua espada se partisse. A ponta da lâmina caiu perto da mulher. Ela apenas observou, satisfeita com o combate que presenciava.
Os combatentes mais uma vez se fitaram. O selvagem soltou o seu tacape, Depardieu continuou com o pedaço de sua lâmina em riste. Novamente, um avançou contra o outro. Depardieu atacou com o pedaço de lâmina, a vantagem era dele. O selvagem defendeu-se com a palma da mão, cravando o fio da lâmina em sua carne, mas ele pareceu ignorar a dor, agarrando Depardieu entorno do seu tronco e os braços, levantando-o no ar e o esmagando com força, sem dar-lhe oportunidade para uma reação. Depardieu sentiu a forte pressão, parecendo quebrar os seus ossos. A luta parecia decidida. O selvagem quebraria alguns ossos do francês, o asfixiaria e o faria perder os sentidos, sua carne provavelmente alimentaria a sua tribo. Depardieu mal conseguia respirar, levou a mão à sua bainha de aço, desprendeu da cintura com os poucos movimentos que lhe eram possíveis fazer e, com extrema dificuldade, golpeou repetidas vezes o joelho e a perna do selvagem. Este acabou não agüentando, os pés de Depardieu tocaram o chão, foi o suficiente para um apoio. Ele golpeou com pernas até que pudesse se soltar e continuar atacando com a bainha. O selvagem o soltou e só foi capaz de ver a bainha de aço golpeando o seu rosto. Ambos se encaram uma derradeira vez. Naquela altura da luta, o próximo golpe seria o último. A formosa selvagem mantinha-se fria, confiante que o seu companheiro seria o vencedor. “Como eles são capazes de falar a língua dos portugueses?”, pensou uma última vez. Ambos avançaram para o último e derradeiro ataque.
– Vocês dois, – gritou outra voz, em português. – parem! Avaantã! Francês! Parem agora!
Tanto o francês como o selvagem seguraram o seu avanço. Depardieu nada entendeu. O silêncio prevaleceu. Japira, a formosa guerreira selvagem, fitou o homem que se pronunciava.
– Agora que a luta ia ser definida, você interrompe? – perguntou ela.
– Vocês perderam o juízo? – continuou o estranho homem. – Ele não faz parte do povo que nos afronta!
– Ele cheira ao povo francês, – era Avaantã. – está impregnado!
– Mas não possui a mesma conduta. – retrucou o homem, virando-se para Depardieu. – Vejo a cruz em seu peito, faz parte da Guarda de Elite de seu rei, estou correto?
Depardieu o olhou de volta, ainda ofegava. “Está explicado o porquê de dominarem a língua dos portugueses”.
– Quem é você? – perguntou Depardieu com dificuldade.
O homem fez uma leve reverência.
– Dom Paulo Barros Eurico, – começou ele, para o seu espanto. – governante da cidade de Eurico. Enviado a estas terras com a intenção de expulsar tamanhos invasores. Vi que derrubaste uma das naus do nosso inimigo e lhe sou grato por isso. Pena que a sua embarcação também tenha naufragado.
– Ele ainda fede ao povo que tem avançado impiedosamente contra o meu. – era Avaantã.
– Onde está a sua embarcação? – perguntou Depardieu.
– Destruída pelos mesmos inimigos, mais ao norte.
– Nossa aliança é tênue, se continuar conversando com o inimigo...
– Se acalme, Avaantã, ele é um aliado.
O selvagem encarou Depardieu com seriedade.
– Quando iria me contar que se aliaria a franceses? Não era regra caçar sobreviventes da nau inimiga e exterminá-los?
– Eu já lhe disse que este homem não é como os outros, estavam na embarcação que disputou batalha e naufragaram levando uma das naus inimigas. Não tínhamos como saber se era aliado ou não, acabei de descobrir.
– Quando ia me contar?
– Vou precisar falar em sua língua que “acabei de descobrir”?
– Ele – começou Japira na língua nativa. – “acabou de descobrir”.
Avaantã e Eurico a fitaram, Japira sorriu.
– Realmente achei necessário. – observou ela.
Depardieu levantou-se.
– Vocês são aliados contra o povo rebelde da minha nação. – disse. – Então, peço que ajudem a cumprir a missão que fui incumbido: derrotar esses franceses que não aceitam a autoridade de meu rei. Encontraram algum sobrevivente da minha tripulação?
– Você é o primeiro que encontramos da outra tripulação. – respondeu Eurico. – Do inimigo, encontramos apenas dois. Talvez apenas você tenha tido sorte.
“Isso é alentador”.
– Tenho que sair daqui, onde vocês se refugiam?
Avaantã se adiantou.
– De forma alguma, você chegará perto de minha tribo!
– Calma, Avaantã! – disse Eurico. – Ele é o representante direto do senhor do seu povo, assim como eu, e ele está propondo uma aliança com a sua nação.
O selvagem olhou para a sua esposa, também não fez objeção.
Virou para Depardieu.
– Sou líder do meu povo e sua proteção depende de minhas decisões. Portanto, se fizer algo que eu considere uma afronta, pagará com a sua existência.
“Esse homem não consegue dizer uma frase sem ameaçar a mim ou qualquer outro à suas volta?”.
– Está bem. – respondeu Depardieu. 

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