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terça-feira, 8 de outubro de 2013

O Pequeno Li - Continuação l

Relembrando:

Um Dia Antes.


“Meu nome é Li, sou um jovem guardião. E tenho apenas treze anos. Fui enminha infância a seguir nos caminhos do Senhor. Sou filho de Sir Gregory Wright, um estrangeiro, e Lien, nativa desta terra. Na verdade, o meu pai é o guardião titular de um objeto que, combinado com mais seis, pode definir o rumo história da humanidade. Ele o deixou sob a guarda da Diocese de Macau para que, estando eu pronto, o buscasse, mas sei que não está na hora. Afinal, entendo que o destino do mundo nas mãos de uma criança de treze anos não deve soar muito bem. Mas parece que estou pré-destinado a fazer isso um bocado de vezes. Sério! Não duvide! Mas não se preocupe. Até lá, serei mais velho e responsável. Para dar seguimento no legado de meu pai, estou disposto a enfrentar inimigos de todas as formas e tamanhos, conhecer os outros Guardiões e outras terras.

Sou um adolescente cheio de truques, sou um prodígio. Sou treinado desde os três anos de idade em combates corpo a corpo. Sou poliglota. Estudo a Palavra de Deus desde antes mesmo de saber que era capaz de pensar, mesmo em um mundo que sequer ouviu falar de Cristo (excetuando meu pai, minha mãe e meu tio, os dois últimos por influência do primeiro). Já viajei por lugares inimagináveis com o meu pai (e estou falando de mares nunca antes navegados). E já vi e fiz mais coisas de que a maioria das pessoas fará em suas vidas inteiras. Então, preste atenção nas palavras que irei proferir, e quero que pense com cuidado. Quero que olhe nos meus olhos e reflita nos vocábulos que virão:
– Já limpei o chiqueiro, tio! O senhor quer mais alguma coisa?
– O quê?
– O chiqueiro, tio. Eu já limpei!
Ele estava no alto da colina, talvez não pudesse me escutar direito.
– Que chiqueiro?
Ou estava ficando surdo.
– Que o senhor pediu para que eu limpasse.
– Pedi para o quê?
– 'Limpasse'!
Ou estava me fazendo de bobo.
– E limpou?
– Sim...
Um histórico tão recomendado quanto o meu e ainda não conseguia o respeito do meu tio.
– Quando?
Ele só podia estar zombando de mim.
– Quando o quê?
– Quando mandei limpar?
Ele era muito sério, mas quando estava de bom humor, se tornava o cara mais sem-graça do mundo.
– Hoje de manhã...
– Não lembro...
Falei?
– Mas...
– Era só jogar uma água!
Sei que está escrito que devemos “honrar pai e mãe”.
– Mas o senhor man...
– Que tal ir para a plantação agora?
Que devemos amar nossos irmãos.
– Está certo...
Que devemos amar os nossos inimigos.
– Mas se lave primeiro, você deve estar fedendo como um porco.
Que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos.
– Mais alguma coisa?
– Os porcos gostaram da companhia?
Mas devia haver alguma coisa sobre tios “engraçadinhos” e sobrinhos inocentes...
Bom, o dia passou rápido. Sem mais piadas. Continuei fedendo o resto da tarde, sem esquecer que ainda escorreguei na lama quando retornava pra casa, o quadro estava completo, não faltava mais nada. Era preciso ser um tipo muito especial para ver um dia tão idiota terminar de forma tão terrivelmente estúpida e suja.
Mas a pequena fazenda estava em ordem. Em muitos aspectos, despertava a cobiça dos nobres das redondezas. Não tínhamos servos, não queríamos, trabalhávamos duro, e muitos não entendiam. Chegavam a nos odiar devido ao nosso modo de levar a vida, com trabalho e esforço. E Deus nos abençoava, o que só nos fazia prosperar.
O céu já escurecia. A minha casa despontou no horizonte, estava acesa e era convidativa. Mas eu deveria ir para casa de banho antes de me instalar na residência. Entrei pela porta da frente. Precisaria preparar um novo banho.
– Que dia! – reclamei.
Foi quando vi que a água já estava pronta, pelo menos alguém se lembrou de deixá-la assim para quando eu chegasse. Estava pronto a tirar toda aquela lama e fedor do corpo.
– Você está bem? – perguntou uma voz de súbito, era a minha mãe, Lien.
– Há quanto tempo a senhora está aqui?
– Quem você imagina que preparou o seu banho? Sien?
– Ele hoje estava bem-humorado, prefiro o tio bem sério. Ele não sabe fazer piada.
– As dele são melhores que as suas...
– Será?
– Você está fedendo.
– Prefiro ele sério, está me assustando.
– Pobrezinho. Ele tem um motivo. Cuidou bem da plantação?
– Cuidei. Não vi nenhum problema. Que motivo?
– Recebemos uma carta dizendo que o seu pai aportará em breve em Macau.
Não pude conter a emoção.
– Quando o papai chegará?
– Algo entorno de um mês.
– Que ótimo! Vou mostrar a ele o quanto evolui! Será que ele me leva na próxima viagem? Como terá sido a sua última missão? Será que ele vem acompanhado de alguém? Será que o tio Ray e a tia Akemi também virão? Será...
– É melhor você se limpar, vamos conversar com mais calma na hora da janta.
A mamãe saiu enquanto eu me mantinha admirado! Meu pai ia voltar! Meu Deus, isso era maravilhoso. Queria que os dias passassem logo para que eu pudesse vê-lo. Estava morrendo de saudades. Na janta, à noite, encontrei toda a família: A minha mãe, Lien; Xiaoli, minha irmãzinha; Yu, irmã mais velha de minha mãe e esposa de Sien; e a pequena Hua e o Liang, meus primos. Liang tinha a minha idade. O meu tio entrou logo em seguida. Yu e minha mãe puseram a mesa e serviram a todos.
– Meus irmãos de armas virão amanhã. – disse Sien. – Vamos nos preparar para receber o nosso outro irmão de braços abertos.
Quando o meu tio se referia a “irmão de armas”, ele queria dizer sobre o mestre Lao e o guerreiro Jiang-Quo, homens valentes que acabaram tornando-se amigos em meio a tantas aventuras. Eles também eram os meus mestres de armas. Possivelmente, eles passariam os próximos trinta dias à espera de meu pai, ajudariam na fazenda e no meu treinamento. Estava muito feliz. Conversei sobre o meu pai, queria mais informações, nem que fossem inventadas, apenas para acalmar o meu ânimo.
– Não se esqueça dos porcos amanhã de manhã! – dizia ele me remedando.
E o tempo passou, todos comeram e foram descansar. Eu demorei a adormecer, só pensava no meu pai e as suas aventuras, mas consegui. As horas passaram e me alegrava com a notícia de que meu pai logo estaria de volta. Saudade. Minha imaginação mostrou-se bem ativa naquela noite, mesmo dormindo. O meu sono mostrou-se leve. Foi então que eu ouvi o que me pareceu algo rondando a casa. Com o sono leve, fui o primeiro e único a despertar. Levantei-me para enxergar, mas foi inútil. Aproximei-me da janela, mas nada captei.
A noite já encobria a terra com perfeição. Fitei ainda com mais força em meio à escuridão, minha visão acostumou-se ainda mais com a falta de luz, mas parecia inútil. O silêncio ainda era rompido por algo que parecia o barulho de passos em meio às folhagens, agora distantes. O que poderia ser? Pensei em chamar o meu tio, mas dei lugar à minha curiosidade, pulei a janela.
Foi a última coisa que vi.
Acordei dopado. O dia já estava claro, meus olhos doíam. Alguém havia me contaminado com algo capaz de obscurecer meus sentidos. Talvez uma seta expelida. Mal podia enxergar. Foi quando vi os meus captores. Havia um brutamonte com um braço da largura da minha cintura, um guerreiro que parecia ser um oficial do exército do imperador, e uma mulher muito bonita, porém em trajes menores, talvez ela quisesse ser sensual.
– Moça, – disse, não pude me conter. – você está pelada...
O tapa que levei dela quase deslocou o meu queixo, mas não perdi a piada sem-graça. A viagem durou mais uma hora. Bom, o que havia acontecido era o seguinte: eu havia sido seqüestrado. O mensageiro que trouxe secretamente a carta do meu pai foi seguido e morto após entregar a missiva. Agora, eu estava à mercê desses palhaços e de um pequeno exército do imperador, algo entorno de duzentos homens. Acho que era o “Serviço Secreto” do imperador. Eles desconfiaram da minha família, talvez por causa de alguma denúncia vazia de um dos vizinhos nobres das redondezas que cobiçavam a pequena propriedade do meu tio para si. A denúncia era simples: independente de provas, bastando a denúncia, haveria a averiguação. Normalmente, esse serviço bate na porta da frente e tortura o chefe da família em busca de indícios de planos contra a vida do imperador ou uma revolta armada. Por fim, aquela terra ficaria abandonada até o primeiro posseiro tomar o terreno. Algo muito normal naqueles dias.
Mas a minha família não tinha nada de normal, então eles decidiram averiguar mais fundo, descobrindo que o fim do abismo era muito mais abaixo. Será que estão desconfiando realmente que somos traidores do império? Eles queriam saber quem era esse estrangeiro de nome “Sir Gregory” que enviava cartas àquela residência. Capturaram logo o mais jovem com a intenção de torturá-lo, pois suportaria menos a dor. Sabe de uma coisa? O vizinho não vai ganhar só as plantações do meu tio, vai acabar sendo premiado por apontar a ‘grande conspiração contra o império’, ou vai ser denunciado também e acabar que nem eu...” 

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