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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Cavaleiro e a Guerreira - (Continuação ll)

 A lua estava alta no céu, a aldeia estava prestes a repousar. Mas não importava o quanto ele contasse a sua história, a sua origem, os aldeões, principalmente as crianças, estavam fascinados por ele. Cada detalhe, viagem, desfecho de história, eram repetidas dezenas de vezes. Sir Ray contava a mesma história quantas vezes fossem necessárias contar. Os mais velhos da aldeia eram gratos por ele ter se fixado no local apenas para afugentar possíveis represálias. Porém, um aldeão enxergava um pouco mais além, ele percebia a bondade no coração daquele guerreiro, observava o seu semblante por debaixo de toda aquela força e intimidação.

Sir Ray percebeu a sua presença, o fitou de volta. O aldeão o chamou com o olhar, sem um único gesto, Sir Ray não pôde recusar, as crianças e demais presentes afastaram-se solenemente.
Ambos afastaram-se do local onde se encontravam.

– Vejo o seu sorriso. – observou o velho após algum tempo.
– E o senhor acha que vai durar?
– Não. – respondeu. – Ele sempre acaba.
– Então, não gosta dele...
– Não, pelo contrário. Admiro. Você é forte e de bom coração, qualidades que raramente se juntam em um único homem. Você é um novo herói para a nossa aldeia.
– Não sou um herói, mas um homem disposto a fazer o que é certo.
– A quem está afrontando?
– Faz apenas alguns meses, mas um nobre da região tem tentado manipular o povo e elevar o seu nome, nem que para isso tenha de fazer o povo sangrar, e isso não posso permitir. Acredito que esta situação que nos encontramos tenha se tornado algo que promete não acabar, diferente do meu sorriso.
– Ele um dia terá de desistir.
– Mas outro ganancioso tomará o seu lugar...
– E surgirão homens capazes de afrontá-lo, e você poderá descansar, meu jovem.
Ray sorriu.
– Este é um bom conselho para esta hora, – concluiu. – seria interessante se já pudéssemos repousar.
Era a vez do velho aldeão sorrir.
– Mostra-se mais cansado do que seus avós. Mas, como pareço estar com mais força do que você hoje, vou acompanhá-lo até o seu estabelecimento.
A luz do luar mostrava-se cada vez mais fraca, passando por detrás das nuvens. Os dois despediram-se à porta da casa. Ray adentrou o lugar, depositou a sua espada ao seu lado, recostou-se em algo firme, sentando-se, e, reclinando a cabeça, dormiu rapidamente. O tempo se passou, e o merecido descanso foi sendo tomado. Tudo estava em paz, apesar de preferir dormir em alerta. Algo poderia acontecer enquanto ele estivesse desacordado, por isso dormia em alerta. Foi quando, de súbito, Sir Ray sentiu a presença de alguém dentro daquele aposento, uma sombra esgueirando-se lentamente. Ray percebeu o perigo sem demonstrar qualquer sinal de vigília. A sombra cresceu em sua direção, havia apenas uma fração de segundos para impedir que o assassino lhe retirasse a vida. Estava muito próximo, foi quando Ray sacou parte de sua espada, apontando o fio da espada na direção do pescoço de seu inimigo.
– Não! – gritou uma voz feminina.
Sir Ray parou a lâmina a alguns milímetros de seu alvo e observou. “Ela é linda”, pensou. Uma moça frágil mostrava-se sem reação diante daquela lâmina.
– Eu... eu... – não conseguia terminar a frase. – Eu só vim lhe agradecer por ter salvado meu povo e ter permanecido aqui nos protegendo.
A manga de sua roupa estava caída. Sir Ray a observou.
– Calma, – disse. – pensei se tratar de um adversário.
– Retiraria a minha a vida se fosse o seu inimigo?
– Eu não costumo matar.
– Mas você carrega uma espada, – retrucou. – e parece não ter medo de usá-la...
– Não tive a intenção de matá-la. Por favor, se acalme.
Ela respirou de forma mais tranqüila.
– Vim lhe trazer um presente. – disse abaixando ainda mais a manga de seu kimono.
Ray observou novamente.
– Desculpe, mulher, não estou disposto a assumir o que me oferta.
– Entendo...
– Não, você não entende. – retrucou de forma séria. – Não estamos em paz e é certo que o inimigo enviará homens para trazer o terror até este lugar. Por isso, não posso me distrair.
– Você é íntegro. Não é capaz de matar, mesmo carregando uma arma. E acredita que estará se aproveitando de mim devido aos seus atos heróicos.
– Quase acertou em ambas. – respondeu levantando-se para abrir a porta e retirar-lhe do aposento. – Sou apenas um cristão convicto. – disse sem que esperasse que ela entendesse.
Caminhou pelo aposento em direção a entrada.
– Qual o seu nome? – foi sua última pergunta.
A mulher sorriu à retaguarda do cavaleiro.
– Akemi. – respondeu sacando uma arma de sua manga.
Sir Ray sentiu o perigo, virando-se em seguida, mal teve tempo de desviar-se de uma estrela de arremesso que vinha contra o seu rosto. Outra veio na altura de seu peito, forçando a defender-se com a bainha de ferro de sua espada. O chute seguinte de Akemi jogou-o contra a porta, sacando a ninja-to de suas costas, tentando cravar em seu corpo. Sir Ray defendeu-se com a sua katana. A espada daquela mulher, menor e em um campo fechado, correu com mais velocidade sobre a lâmina do adversário, retornando em seguida e rasgando o peito desprotegido do cavaleiro. Sir Ray teve somente tempo de revidar com a guarda da espada e o seu punho cerrado, desferindo um soco no rosto da moça. Ela recuou.
– Quem é você?
A moça sorriu.
– E importa o meu nome? Admiro a sua postura e integridade, não esperava ter de executar um homem como você hoje. – seu olhar se fechou. – Guerreiros do seu porte são muito mais desalmados.
Sir Ray colocou a sua espada em riste entre ele e sua atacante.
– O que você quer?
Ela sorriu novamente.
– Pretendia eliminá-lo de forma indolor, quando menos esperasse, mas não caiu em minha isca, agora preciso derrubá-lo de uma forma que desprezo.
O cavaleiro fitou profundamente os olhos da guerreira, procurando entendê-la.
– Você não é má! – afirmou Ray. – Está apenas mal orientada.
A guerreira levantou a sua espada na altura dos olhos, mirando o seu alvo.
– Talvez você esteja enganado. – respondeu saltando sobre ele.
Ray levantou a sua espada, desferindo o primeiro ataque.
– Deus a repreenda! – disse em meio ao seu ataque.
De súbito, Akemi sentiu-se presa ao solo, a espada de Sir Ray continuou descendo. A bela mulher teve apenas uma fração de segundos de levantar a sua lâmina para bloquear o ataque, arma se partiu ao meio, desprotegendo a guerreira. Ela fixou os olhos na katana que se aproximava, sem piscar, sua morte era certa. Mas a espada novamente parou com alguns milímetros de distância., e assim permaneceram.
Akemi pareceu perder as forças, suas pernas não responderam mais, caindo com os joelhos arqueados.
– Que magia é esta? – perguntou ela.
– Não foi magia. – respondeu Ray dando meia volta, seguindo em direção à porta do aposento, abriu-a em seqüência. – Está livre para partir.
Akemi baixou a face.
– Para onde espera que eu vá? – retrucou ela. – Eu falhei onde ninguém falharia. Se retornar para a minha família dessa forma, serei morta, isso é certo.
Ray voltou-se para ela mais uma vez, caminhou em sua direção sem dizer uma única palavra, abaixou-se em sua frente.
– Eles não são, e nunca foram, a sua família. Possivelmente, você era uma órfã, raptada e treinada desde então para cumprir as missões mais baixas, e você as cumpriu. Porém, agora que foi derrotada por alguém que não a matou, vê uma nova possibilidade de vida, ganhou uma segunda chance, e não deseja desperdiçá-la entregando de bandeja para eles. Você quer que eu me compadeça de ti.
– Ainda posso tentar matá-lo...
– Definitivamente, essa não é uma opção.

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