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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Guerreiro de Damasco (Continuação ll)

O antigo califa andou cercado de soldados, levando-o a ferros. Isto estava errado. Só conseguia ver a multidão se alvoroçando. Mas já estava tudo preparado: quando o califa colocasse os pés sobre aqueles degraus, eu cuidaria dos homens que o prendiam e Omã levaria o velho califa pelo caminho aberto no meio da multidão por Abbas. Eu retardaria todos os outros adversários com a minha vida, pois eu, Abd el-Rahman, não deixaria que o maior homem que já conheci em minha vida fosse morto aqui.
Faltava pouco.
Preparei a minha espada, fitei cada soldado. Todos desconfiavam de nossas ações, é claro que havia mais homens à postos para nos deter se fizéssemos alguma besteira, não sabiam eles como estavam certos. Primeiro, feriria o mais próximo a mim, depois avançaria contra o que estava próximo de Hamam.
Minha mente ficou silenciosa, concentrada. Cada passo ecoou em meus ouvidos.
Apenas mais um passo.
– Não! – disse o califa jogando-se em minha direção. – Proteja-se! 
Não entendi o que estava acontecendo até o momento em que ouvi um estampido ao longe e vi um fio de sangue saltar das costas do homem que viria proteger. Ele jogou-se na frente da linha de tiro que estava destinada a mim. Como ele percebeu aquele disparo? Quem atirou sabia que ele havia percebido, por isso mirou em mim. Sabia que Hamam me protegeria e não erraria o alvo.



Eu ajudei na morte do meu maior amigo!
Todos se alvoroçaram mais uma vez, vários saíram correndo. Os soldados abandonaram o corpo frágil e moribundo do califa nos degraus da escada. 
Omã correu para ajudá-lo.
– Alguém! – dizia ele. – Alguém me ajude aqui!
Era em vão.
– O povo... – foram essas as últimas palavras daquele homem. – Cuide do povo...
Meus olhos encheram-se de lágrimas. Procurei por Abbas, este já corria em direção de algo, só podia ser de quem havia dado o disparo, talvez fosse o maldito que acusara em falso aquele que considerava o meu irmão. Apanhei uma arma de fogo, prendi às minhas costas e parti em disparada. Tentei alcançá-lo tentando imaginar quem seria o maldito. Apenas o vi saltando como uma fera para o alto de uma casa e se jogando para dentro de uma janela, o atirador só poderia ter uma boa visão de toda a praça dali.
O alcancei alguns segundos depois. Abbas procurava com os olhos, mas parecia não encontrar mais nenhum indício do maldito assassino.
– Fale, Abbas! – disse ainda de forma afoita.
– O local estava vazio, – respondeu. – mas é certo que foi daqui que veio o disparo!
– Então, ele não está longe!
Olhamos em volta, percebemos uma corda jogada ao chão. Fitamos rapidamente uma outra abertura que dava entrada para o sol mais acima, feita no teto, com a ponta da outra corda cortada. Ele só poderia ter fugido por ali.
– Ajude-me a subir. – falei.
Abbas deu-me apoio, consegui tocar com as pontas dos dedos. Abbas forneceu-me impulso enquanto saltava e me esticava. Suspendi-me no ar, apesar dos meus quarenta anos, ainda tinha bastante força. Saí no teto daquela casa e fitei uma imensidão de telhados. Consegui captar o rastro do possível assassino. Não pensei duas vezes. Abbas queria arremessar a corda para que eu a prendesse, mas isso levaria tempo, se conteve. Partir no encalço do maldito.
Captei alguém fugindo por sobre os telhados já havia uma boa distância. Puxei uma arma de fogo, era humanamente impossível acertá-lo, mas não estava disposto a questionar isso, o disparo sequer iria causar algum ferimento, mas queria atrasá-lo. Mirei. Atirei.
Só fui capaz de ver um corpo caindo, foi um milagre.
Não respirei, larguei a arma e segui em sua direção, agora armado de minha espada. Quando alcancei o local onde ele havia caído, ele não estava lá, mas havia um rastro de sangue. O segui. Só fui capaz de ouvir, ao mesmo tempo, o som de um estampido de uma arma de fogo e o zunido do disparo coçando o meu cabelo. Agradeci por mais esse milagre. O disparo denunciou onde ele estava escondido. Avancei. Ele puxou sua cimitarra para se defender. Mas ele sequer conseguiu usá-la. A primeira espadada arrancou-lhe a mão, era o mínimo que ele merecia. A segunda cortou-lhe o peito.
Caiu indefeso.
Estava pronto a questioná-lo quem o havia mandado, mas não foi necessário. Ao longe, percebi um grupo de cavaleiros, disparando em desembalada carreira, deixando o seu peão para trás. Se o atirador já estava fraco com o disparo que levara, com o golpe de espada, ficou inútil. Eles não mais o queriam.
Abbas chegou em seguida.

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