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quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Cavaleiro Verde (Final)

Agora, aproxima-se o Dia do Ano Novo, e o tempo mostra-se tempestuoso. A neve tomba e o valezinho estreito cobre-se de profunda camada levada de aluvião. Gawayne, em sua cama, ouve o cantar de cada galo. Chama o camareiro e pede-lhe que lhe traga sua armadura. Homens limpam da ferrugem sua luxuosa cota de malhas e o cavaleiro pede seu corcel. Enquanto assim se vestia com seus ricos trajos, não se esqueceu do cinto, o presente da dama, mas com cie cingiu duplamente a cintura. Usava-o, não pelos seus finos enfeites, "mas para salvar-se quando se visse em contingência dolorosa". A toda a gente o castelo agradeceu ele amplamente, e logo ali estava o corcel Gringolet, ajaezado, pronto, e inquieto para partir. Sir Gawayne tornou a agradecer as honrarias e bondades com que fora distinguido por todos, e saltou para a sela, da pedra de montaria, dizendo:
— A Cristo recomendo este castelo! Que Ele lhe dê sempre boa sorte!
A seguir, abriram-se os portões do castelo, e o cavaleiro cavalgou para fora, fazendo seu caminho em companhia do gula. Cavalgaram através de caminhos pedregosos e de ro-chedos, onde cada outeiro estava usando um capuz de névoa e um manto de neblina, e quando o dia abriu inteiramente, encontraram-se "numa colina muitíssimo alta". Então, o guia solicitou a atenção de Sir Gawayne, dizendo-lhe:

— Trouxe-te até este ponto, e não estás longe do lugar que procuras. Êle é considerado muitíssimo perigoso, seu senhor é violento e severo, seu corpo é maior do que os dos quatro melhores cavaleiros da casa do Rei Artur. Ninguém passa pela Capela Verde sem receber golpe de morte dado pela mão dele. Trate-se de um campônio ou de um capelão, monge, padre ou qualquer outro homem, êle mata-os a todos. Há muito vive êle neste lugar, e contra seus golpes maléficos não te podemos defender. Portanto, Sir Gawayne, deixa em paz aquele homem, e vai para alguma outra região, e eu posso jurar-te solenemente que jamais contarei a ninguém que tentaste fugir de homem algum.
Gawayne respondeu que se furtar àquele perigo seria impor a si próprio a marca de cavaleiro covarde. Iria, pois, para a capela, embora aquele que ali era senhor fosse o mais cruel e o mais forte dos homens.
— Muito bem, — disse êle, — pode Deus projetar uma forma de salvar seus servos leais!
— Deveras — replicou o outro — e desde que te agrada perder tua vida, conserva teu elmo na cabeça e tua espada na mão, e cavalga por este caminho abaixo, que margeia até longe o rochedo, e chegarás ao fundo de um vale. Olha um tantinho para a esquerda, e verás a capela mesma, e o homem que lhe monta guarda.
Tendo assim falado, o guia despediu-se do cavaleiro.
— Pela graça de Deus — disse Sir Gawayne — jamais chorarei ou gemerei. Estou inteiramente disposto a curvar-me ante a vontade de Deus!
Assim, cavalgou através do valezinho e ansiosamente olhou em torno cie si. Entretanto, não viu sinal de lugar de descanso, mas apenas altas e escabrosas ribanceiras, enquanto a capela não era divisada em parte alguma. Por fim, viu uma colina, ao lado de um riacho. Para ali seguiu, desceu do cavalo, prendendo-o ao galho de uma árvore. Caminhou em torno da colina, procurando a capela e comentando consigo mesmo sobre onde poderia estar, quando, finalmente, chegou a uma antiga gruta cavada no íngreme penhasco.
— Realmente — pensou ele — que lugar selvagem, este. Próprio para o Cavaleiro Verde fazer suas devoções, à sua moda maldosa. Se esta é a capela, trata-se da mais desgraçada igrejola que já vi em minha vida.
Nessa altura, porém, ouviu grande rumor, que vinha de além do riacho. Soava como o afiar de uma foice na pedra de amolar, e zunia como um moinho d’água.
— Embora renuncie à minha vida, — disse Gawayne, — ruído algum há de me amedrontar.
E gritou, em voz bem alta:
— Quem mora aqui e deseja conversar comigo?
Então ouviu uma voz forte que lhe ordenava ficar onde estava, e depressa saiu de uma toca, com uma arma tremenda — machado dinamarquês, novo — o Cavaleiro Verde, vestido tal como Gawayne o vira havia muito tempo. Quando chegou ao riacho, saltou sobre êle, e, alongando os passos, veio ao encontro de Sir Gawayne, sem lhe fazer o menor gesto de saudação.
— Deus te guarde! — disse êle. — Como verdadeiro cavaleiro fizeste a tempo a tua viagem. Sabes o que ficou convencionado entre nós: no dia do Ano Novo deverias receber de minha mão um golpe, em troca do que me deste. Aqui, estamos sozinhos. Tira teu elmo e recebe já a tua paga.
— Por minha fé — respondeu Sir Gawayne — não te regatearei o cumprimento de teu desejo.
Exibiu, então, o pescoço nu, e parecia intrépido. O Cavaleiro Verde agarrou a temerosa arma e com todas as suas forças levantou-a no ar. Quando a lâmina descia, reluzente, sir Gawayne encolheu um nadinha os ombros, e então o outro censurou-o, dizendo-lhe:
— Não és o Gawayne tão estimado, pois recuas de medo antes que sejas tocado pelo mal. Eu não me desviei, quando me golpeaste. Minha cabeça foi tombar a teus pés, e ainda assim eu não me desviei. Devo, portanto, ser considerado melhor homem do que tu.
— Eu vacilei uma vez, — disse Gawayne, — mas isso não se repetirá. Leva-me ao ponto que desejas: dá-me imedia-tamente o golpe que me matará.
— Recebe-o, pois — disse o outro. E, com essas palavras, prepara-se para assestar o golpe fatal. Gawayne não recuou, mas conservou-se imóvel, como se fosse de pedra.
— Agora — disse o Cavaleiro Verde — tenho de ferir-te, pois teu coração é inteiriço.
— Fere — disse o outro.
Então, o Cavaleiro Verde preparou-se para ferir, e dei-xou tombar o machado no pescoço nu de Sir Gawayne. A afiada arma cortou a pele, e o sangue correu. Quando Gaway-ne viu o sangue na neve, desembainhou sua espada, e assim falou:
— Não firas mais, homem! Se me ferires, golpe por gol-pe receberás! Concordamos em que seria apenas um golpe.
O Cavaleiro Verde descansou seu machado, olhou para Sir Gawayne, que se mostrava ousado e destemido, e dirigiu-se-lhe da seguinte maneira:
— Intrépido cavaleiro, não te encolerizes, pois prometi um golpe e já o recebeste. Podes ficar satisfeito, pois eu podia ter-te tratado pior. Ameacei-te primeiro com um golpe, pelo que ficou combinado entre nós na primeira noite. Outro golpe armei para ti, pela segunda noite. Um homem verdadeiro deve retribuir verdadeiramente, e assim não precisa temer o mal. Falhaste na terceira vez, e portanto recebeste este golpe, pois que o cinto, tecido pela minha esposa, estás usando. Sei o teu segredo, e a dádiva que minha esposa te fêz, pois que lhe ordenei que te pusesse à prova, e sem culpa te encontrei. Ainda assim, cometeste um pequeno pecado, pois recebeste o cinto para salvar a pele e por amor à vida.
Sir Gawayne ali ficou; envergonhado, diante do Cavaleiro Verde.
— Malditas sejam — disse ele — a covardia e a cupidez!
Tirou então o cinto e entregou-o ao Cavaleiro Verde, confessando-se culpado de falsidade. Então, o outro, rindo, assim falou:
— Confessaste tão limpamente que eu te considero livre, como se jamais tivesses sido culpado. Dou-te, Sir Gawayne, o cinto debruado de ouro como um testemunho de tua aventura na Capela Verde. Volta ao meu castelo, e fica ali até que terminem as festas do Novo Ano.
— Não, certamente, — disse Sir Gawayne, — pois já me demorei muito tempo fora. Que sobre ti desça a prosperidade. Recomenda-me à tua graciosa esposa, que me iludiu. Mas, embora tenha sido iludido, penso que devo ser desculpado! Deus te recompense pelo teu cinto, que usarei como recordação do meu erro. E quando o orgulho me causticar, um olhar lançado a esta faixa verde o abaterá. Conta-me, porém, teu nome verdadeiro, e estarei satisfeito.
O Cavaleiro Verde respondeu:
— Chamam-me Bernlak de Haut-desert, que é, através do poder da Fada Morgana, o discípulo de Merlin. Ela sabe domar os mais altivos. Foi quem me levou a experimentar a fama da Távola Redonda, esperando desgostar a Rainha Guinever, causando-lhe a morte pelo medo. A Fada Morgana é mesmo tua tia. Portanto, volta para ela, e diverte-te em minha casa.
Mas Sir Gawayne recusou-se a voltar com o Cavaleiro Verde. Despediu-se dele cortesmente, e voltou a cabeça de Gringolet em direção do castelo do Rei Artur. Por caminhos selvagens e lugares ermos cavalgou êle. Às vezes abrigava-se numa casa, pela noite, às vezes tinha de acomodar-se sob as árvores. A ferida de seu pescoço curou-se, mas êle ainda usava o cinto, penhor de sua culpa.
Assim chegou de novo Sir Gawayne, finalmente, à Corte do Rei Artur, e grande foi a alegria de todos, ao vê-lo. O rei e os cavaleiros fizeram-lhe perguntas com relação à sua viagem, e Gawayne contou-lhes suas aventuras, falou–lhes no castelo do Cavaleiro Verde e da dama, e, por fim, do cinto que usava. Mostrou-lhes a cicatriz de seu pescoço, e, enquanto gemia de tristeza e vergonha, o sangue subiu–lhe às faces.
— Eis — disse ele, mostrando-lhes o cinto verde — a Faixa da censura, um penhor da minha covardia e cupidez. Devo usá-la enquanto viver.
O rei consolou o cavaleiro, e o mesmo fèz toda a Corte. Cada cavaleiro da fraternidade concordou em usar um brilhante cinto verde, por amor a Gawayne, que para sempre honrou aquela faixa. Assim aconteceu aquela aventura, nos dias de Artur. Que Aquele cuja cabeça usa a coroa de espinhos possa trazer-nos sua benção! Amén!

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