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quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Roubo do Hidromel (Parte 3)


O irmão de Suttung conduziu Odin pelas regiões elevadas onde ficava a caverna de Gunnlod, a guardiã do hidromel. Era uma grande cordilheira que eles percorreram a custo até chegar ao seu objetivo, quase ao final do dia.
- É aqui, ceifador incansável - disse Baugi, apontando para uma pequena entrada escavada na rocha bruta. - No mesmo instante, começaram ambos a escavar com picaretas, pois a entrada estava bloqueada por um rochedo, que somente Gunnlod, de dentro, podia remover por um mecanismo especial. Depois de terem atravessado um paredão inteiro e muitos túneis, chegaram, afinal, à gruta subterrânea onde Gunnlod se refugiava.
- Agora, você segue sozinho - disse-lhe Baugi, temeroso de ser descoberto.
 - Está bem, dono dos nove servos - disse Odin, sem nem lhe agradecer, pois o perfume inebriante da bebida já começava a lhe transtornar os sentidos. Odin foi avançando até que sua cabeça brotou do alto por uma fenda, o que lhe possibilitou descortinar um panorama, verdadeiramente deslumbrante: a grande gruta do caldeirão, com seus estalactites vermelhos e as tochas a reverberar pelas paredes faiscantes. Bem ao centro, estava o caldeirão fumegando, embora a guardiã estivesse ausente.
"É agora a grande chance!", pensou o jovem deus, começando a descer pelo paredão com a agilidade de um verdadeiro alpinista. Infelizmente, porém, quando recém havia posto o primeiro pé no chão, teve a desagradável - ou seria agradável? - surpresa de ver surgir Gunnlod por uma entrada lateral.
- Oh, quem é você, escalador de paredes? - gritou ela, fazendo sua voz ecoar pelos paredões escarpados.
- Nada tema, bela jovem - disse Odin, aproximando-se. - Só quero provar um pouco de sua divina bebida.
Gunnlod sentiu-se, instantaneamente, atraída por aquele belo e esbelto intruso. Mas a sua missão de guardiã falou mais alto e ela, como que despertando de um transe, empertigou-se toda. Na sua mão direita havia um arco com uma flecha pronta para o disparo.
- Não acha que eu mereço ao menos um gole pela façanha de devassar o seu belo esconderijo? - disse ele, com um sorriso maroto.
- Fora daqui - gritou ela -, e não vou repetir duas vezes.
- Calma, bela guardiã; na verdade, estou aqui apenas para receber o pagamento por um trabalho feito a seu tio e, por extensão, a seu pai egoísta.
- Como ousa?...
- Sim, egoísta, pois trabalhei para seu tio pelo preço de uma taça de hidromel e, agora, o pérfido Suttung não quer cumprir a sua parte.
- Modere a sua língua, invasor de cavernas!
- Acalmemo-nos, bela Gunnlod - disse, então, Odin, dando um tom conciliatório à sua voz. - Se não quer me dar a bebida, pronto, não dê!... Não pretendo forçá-la a nada. - Odin avançou ainda mais e estava já a ponto de encostar seu peito ao dela, quando Gunnlod ergueu de novo a sua seta. Mas a mão dele a impediu, suavemente, de realizar o disparo. - Já não lhe disse que não vou obrigá-la a nada? - disse ele, enfatizando a última palavra.
Os dois ficaram olhando-se durante um bom tempo, até que Odin colou os seus lábios aos de Gunnlod. O aroma do caldeirão envolvia a ambos numa fumaça avermelhada que dissipou qualquer resistência que pudesse haver no coração da jovem guardiã que, em momento algum, teve consciência do seu fracasso, senão, de que algo, infinitamente mais belo que uma simples missão apresentara-se em sua vida.
Depois de muito tempo, Odin, tendo ainda a jovem em seus braços - mas já deitados -, reclamou que tinha muita sede.
- Deixe-me provar do hidromel - disse ele, com suavidade.
- Está bem, pode beber... - disse ela, preferindo, no entanto, dar as costas ao amado para não presenciar a derrocada final da sua missão. Mas, subitamente, sentiu sua voz repetir a autorização, agora, como se não fosse dela, com uma sombra estranha de euforia na voz: - Pode beber à vontade...
Odin encontrou três enormes taças e as encheu a ponto de esvaziar completamente o caldeirão. Depois, emborcou-as pela boca como quem estivesse havia anos sem beber uma única gota. Quando retornou para se despedir, percebeu, no entanto, que Gunnlod dormia.
- Adeus, guardiã do meu coração! - disse ele, baixinho, retirando-se com a mesma discrição com a qual entrara.
Mas ela não estivera nunca dormindo, nem nunca diriam dela que fora enganada. Desta acusação, que ela julgava a pior, ela fazia questão de estar livre.
- Nada se fez sem a minha autorização - disse ela, como se já estivesse diante de seu pai irado. Gunnlod sabia, desde já, que nunca mais poderia ser a guardiã do caldeirão ou de qualquer outra coisa neste mundo.
- Ora, basta! - exclamou ela, tornando-se repentinamente altiva e serena outra vez. - Serei, então, doravante, a guardiã de mim mesma!

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