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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Cavaleiro Verde (Parte 1)

QUANDO Artur era rei da Bretanha e assim reinava, aconteceu, em certa estação invernosa, que êle realizasse em Camelot sua festa de Natal, com todos os Cavaleiros da Távola Redonda, durante quinze dias completos. Tudo era alegria, então, nos vestíbulos e nos aposentos, e quando chegou o Novo Ano foi recebido com grande regozijo. Ricos presentes foram dados, e muitos fidalgos e fidalgas tomaram lugar à mesa, onde a Rainha Guinever sentava–se ao lado do rei, e ninguém jamais vira senhora tão formosa diante de si. Mas o Rei Artur não quería comer nem sentar-se por muito tempo, enquanto não tivesse testemunhado alguma aventura prodigiosa. A primeira iguaria foi servida sob o soar das trombetas, e diante de cada hóspede colocaram doze pratos e vinho brilhante, para que de nada carecessem.
Mal se começara a primeira iguaria, quando entrou precipitadamente pela porta do vestíbulo um cavaleiro — e devia ser o mais alto cavaleiro da terra. Tinha largas as costas e o peito, mas esbelta a cintura. Vestia-se inteiramente de verde, e suas esporas eram de ouro refulgente. Sua sela mostrava-se inteiramente bordada com pássaros e insetos, e o corcel que ele cavalgava era verde. Vestido de forma vistosa estava o cavaleiro, e sua barba verde, tal moita verde, pendia-lhe sobre o peito. A crina de seu cavalo estava enfeitada com fios de ouro e a cauda amarrada com uma faixa verde. Tal cavalo e tal cavaleiro jamais tinham sido vistos antes. Dava a impressão de que homem algum poderia suportar os golpes do Cavaleiro Verde, embora êle não trouxesse espada nem escudo. Numa das mãos mantinha um galho de azevinho e na outra um machado, cuja lâmina era afiada como a de uma navalha aguda, e cujo cabo era montado em ferro, curiosamente incrustado de verde.

Assim equipado, o Cavaleiro Verde entrou no salão, sem saudar quem quer que fosse, e perguntou pelo governante do grupo ali reunido, procurando em torno de si o mais famoso entre os demais. Muito maravilhados estavam todos por verem um homem e um cavalo verdes como a relva: jamais tinham tido antes semelhante visão. Tiveram modo de responder, e ficaram tão silenciosos como se o sono houvesse tombado sobre eles, alguns pelo medo, outros por cortesia. O Rei Artur, que jamais sentia medo, saudou o Cavaleiro Verde, e apresentou-lhe boas-vindas. O Cavaleiro Verde disse-lhe que ali não se demoraria, e que estava a procura do mais valente, a fim de experimentá-lo. Vinha com espírito de paz, mas também tinha em casa uma alabarda e um elmo. O Rei Artur assegurou-lhe que não deixaria de encontrar ali um opositor digno dele.
— Não procuro luta, — disse o cavaleiro, — pois aqui há apenas crianças imberbes, e não vejo homem que me possa enfrentar. Entretanto, se algum fôr ousado bastante para devolver um golpe com outro, este machado lhe pertencerá, mas eu terei de retribuir-lhe o golpe dentro de doze meses e um dia!
O medo manteve todos silenciosos, enquanto o cavaleiro rolava seus olhos vermelhos de um lado para outro, e franzia seus opulentos sobrolhos verdes. Sacudindo a barba enquanto falava, exclamou ele:
— Quê! Então esta é a Côrte do Rei Artur? Sem dú vida alguma, a fama da Távola Redonda tombou, com uma palavra saída dos lábios de um homem!
Artur ficou vermelho de vergonha e tornou-se encolerizado como o vento. Assegurou àquele cavaleiro que ninguém estava receando suas pomposas palavras, e apoderou-se do machado. O Cavaleiro Verde, afagando a barba, esperou o golpe,’ e, com uma atitude seca, despiu seu casaco verde.
Nessa altura, porém, Sir Gawayne implorou ao rei que o deixasse desferir o golpe. Pedia permissão para deixar a mesa, dizendo que não tinha propósito Artur aceitar o desafio, quando tantos cavaleiros ousados sentavam-se em torno dela. Embora fosse êle o mais fraco, estava pronto para um encontro com o Cavaleiro Verde. Os outros cavaleiros também suplicaram a Artur que "deixasse o jogo para Gawayne". Então Artur deu sua arma a Gawayne, que era seu sobrinho, dizendo-lhe que mantivesse o coração firme e a mão segura. O Cavaleiro Verde perguntou o nome de seu adversário, e Sir Gawayne disse-lhe seu nome, de-clarando que estava disposto a dar e receber um golpe.
— Agrada-me bastante isso, Sir Gawayne, — disse o Cavaleiro Verde, — isso de receber um golpe de teu punho, mas deves jurar que irás procurar-me para receber o golpe de retorno.
— Onde te encontrarei? — disse Sir Gawayne. — Dize–me teu nome e tua morada, e eu te irei ao encontro.
— Depois que me tiveres golpeado — disse o Cavaleiro Verde — hei de contar-te qual é meu nome e morada. Se de todo eu não falar, tanto melhor para ti. Agora, toma tua arma inflexível, e vejamos como feres.
— Com prazer, senhor, certamente — respondeu Sir Gawayne.
Então, o Cavaleiro Verde afastou para os lados seus caracóis longos e verdes, descobriu o pescoço, e Sir Gawayne feriu-o violentamente com o machado, decepando-lhe a cabeça com um só golpe. A cabeça caiu no chão, e muitos maltrataram-na rudemente, mas o Cavaleiro Verde não se perturbou. Adiantou-se, agarrou a própria cabeça pelos cabelos, e fêz a volta com o seu cavalo. Então — oh! — a cabeça ergueu as pálpebras, e dirigiu-se a Sir Gawayne:
— Olha, deves estar pronto conforme prometeste, e procurar até que me encontres. Vai à Capela Verde, para ali receberes um golpe/ na manhã do Ano Novo. Não faltes. Vem, ou serás chamado desleal.
Assim dizendo, o Cavaleiro Verde cavalgou para fora do aposento, com a própria cabeça na mão.
Então, Artur dirigiu-se à Rainha:
— Cara senhora, não desfaleças, pois maravilhas assim ficam bem numa festa de Natal. Agora, podemos comer. Sir Gawayne, pendura teu machado.
O rei e seus cavaleiros sentaram-se à mesa, festejando, com toda a classe de iguarias e toda a espécie de divertimentos, proporcionados pelos menestréis, até que o dia terminasse.
— Mas tem cuidado, Sir Gawayne! — disse o rei, ao fim da festa. — Não faltes à aventura com a qual te comprometeste!

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