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terça-feira, 9 de julho de 2013

O Cavaleiro Verde (Parte 2)

Tal como nos outros anos, os meses e as estações daquele ano passaram bastante rapidamente, sem jamais voltar. Depois do Natal vem a Quaresma, a primavera cheia, e aguaceiros aquecidos se despejam. Então, os bosques tornam-se verdes, e os pássaros constroem seus ninhos e cantam a ale-gria, pois que o verão se seguirá. As flores começam a desa-brochar, e notas nobres são ouvidas nas florestas. Mais belas se faziam as flores com as doces brisas do verão, umede-cidas com as gotas de orvalho. Depois, porém, a colheita aproximou-se, levantando a poeira por toda a parte, as folhas tombaram das árvores, a relva tornou-se cinzenta, e tudo amadureceu e apodreceu. Por fim, quando os ventos hibernais tornaram a surgir, Sir Gawayne pensou na sua temerosa jornada, e em sua promessa ao Cavaleiro Verde.
No Dia de Todos-os-Santos, Artur realizou uma festa dedicada ao seu sobrinho. Depois da refeição, Sir Gawayne assim falou ao tio:
— Agora, senhor e suserano, despeço-me de ti, porque devo procurar, amanhã, o Cavaleiro Verde.
Muitos nobres cavaleiros, os melhores da Corte, aconselharam-no e confortaram-no, muita tristeza manifestou-se no pavilhão, mas Gawayne declarou que nada tinha a temer. Pela manhã, pediu suas armas. Um tapete foi estendido no chão, e sobre esse tapete êle pisou. Estava vestido com um gibão de seda de Tarso e usava um capuz muito bem feito. Colocaram-lhe sapatos de aço nos pés, envolveram-lhe as pernas em perneiras de aço, e colocaram-lhe a cota de malhas de aço, os bem polidos anteparos do raraço, as peças dos cotovelos, e as manoplas, enquanto sobre tudo aquilo era colocado o revestimento da armadura. As esporas foram então fixadas, a espada presa ao seu flanco com um cinturão de seda. Assim preparado, o cavaleiro ouviu missa, despedindo-se, depois, do Rei
Artur e de sua Corte. Por aquela altura seu cavalo Gringolet já estava pronto, e seus arreios reluziam com o resplendor do sol. Então, Sir Gawayne colocou o elmo na cabeça, e o círculo em torno desse elmo era cravejado de brilhantes. Deram-lhe um escudo com o "pen-tângulo" em ouro puro, projetado pelo Rei Salomão como penhor da verdade, pois é chamado o vínculo infinito, e muito bem ficava em Sir Gawayne, cavaleiro dos mais verdadeiros no que dizia e dos mais belos na forma. Tinha perfeitos os cinco sentidos, a imagem da Virgem estava pintada em seu escudo, e jamais tivera falhas de cortesia. Assim, o vínculo infinito foi aplicado ao seu escudo.
Agora, Sir Gawayne agarra sua lança e diz adeus a todos. Esporeia seu cavalo e segue seu caminho. Todos quantos o viam choraram-no em seu coração, e declararam que sobre a terra não seria encontrado cavaleiro igual a êle. Teria sido melhor que se fizesse dirigente de homens, do que procurar a morte às mãos de um cavaleiro que se parecia aos duendes.
Entretanto, muitas e fatigantes milhas percorre Sir Gawayne. Agora, o cavaleiro cavalga através dos domínios da Inglaterra, sem outra companhia a não ser a de seu cavalo, e sem ver homem algum até que se aproximasse da Gales do Norte. De Holyhead passou para Wirral, onde poucos encontrou que amassem Deus ou o homem. Perguntou pelo Cavaleiro Verde da Capela Verde, mas não conseguiu obter notícias dele. Seu ânimo sofreu várias modificações antes que encontrasse a capela. Subiu muitos rochedos, cruzou muitos vaus e muitas torrentes, em toda a parte encontrava um inimigo. Seria cansativo contar a décima parte de suas aventuras com serpentes, lobos e homens selvagens, com touros, ursos e javalis. Não tivesse êle sido ao mesmo tempo bravo e bom, é sem dúvida alguma pereceria. O inverno rigoroso mostrava-se pior para êle do que qualquer das guerras em que tinha estado. Assim, através de perigos, viajou até a véspera de Natal, e pela manhã encontrou-se em floresta intrincada, onde havia centenas de velhos carvalhos. Ali, muitos pássaros tristes, pousados nos ramos despidos, pipilavam lastimosamente, sofrendo pelo frio. Através de péssimos caminhos e profundos atoleiros, ia êle, a fim de comemorar o nascimento de Cristo, e, persignando-se, diz:
— Cruz de Cristo, fazei-me rápido!
Mal acabara de se persignar pela terceira vez quando viu uma moradia na floresta, sobre uma colina, o mais belo castelo que jamais cavaleiro algum possuiu, e que brilhava ao sol através dos carvalhos luxuriantes.
Imediatamente, Sir Gawayne adiantou-se para o portão principal e encontrou a ponte levadiça levantada, bem como os portões trancados. Dali da margem observou as altas paredes de pedra talhada que se erguiam com seus parapeitos, torres e chaminés brancas. E grandes e brilhantes eram suas torres redondas, com seus capitéis bem construídos.
— Oh! — pensou êle — se eu ao menos pudesse entrar no claustro.
Chamou, e logo apareceu um porteiro para saber qual a mensagem do cavaleiro.
— Bom senhor, — disse Gawayne, — pede ao alto senhor desta casa que me conceda alojamento.
— Bem-vindo sejas para aqui morar enquanto te parecer bem — replicou o porteiro.
No mesmo momento a ponte foi descida, e o portão aberto amplamente para recebê-lo. Êle entrou, e seu cavalo foi bem instalado, enquanto cavaleiros e altos senhores rurais levavam Gawayne para o vestíbulo. Todos se precipitaram para tomar-lhe o elmo e a espada, o senhor do castelo deu-lhe as boas-vindas, e ambos cumprimentaram-se, bei-jando-se. Gawayne contemplou seu hospedeiro, e êle pareceu-lhe grande e ousado. De escuro tom de castor era sua ampla barba, e como fogo reluzia seu rosto.
O senhor conduziu Sir Gawayne para um aposento, designando um pajem para servi-lo. Naquela câmara luxuosa havia nobres instalações de leito. As cortinas eram de seda pura, com debruns de ouro, e tapeçarias de Tarso cobriam as paredes e o piso. Ali o cavaleiro livrou-se de sua armadura, vestiu-se com trajos ricos, que lhe ficavam muito bem. E, realmente, mais formoso cavaleiro do que Sir Gawayne jamais tinha sido visto.
Foi, então, colocada junto da latira uma cadeira para seu uso, e cobriram-na com um manto de linho fino, ricamente bordado. Uma mesa foi igualmente trazida, e o cavaleiro, depois de se ter lavado, foi convidado a sentar-se e comer. Serviram-lhe numerosos pratos, com peixe assado e grelhado, ou cozido e temperado com especiarias. Foi um completo e nobre banquete, e muito êle se divertiu, enquanto comia e bebia.
Então, Sir Gawayne, respondendo a uma pergunta de seu hospedeiro, disse-lhe que era da Corte do Rei Artur, e quando tal coisa foi conhecida houve grande alegria no vestíbulo. Cada qual dizia baixinho para seu companheiro:
— Agora veremos maneiras corteses e ouviremos nobres palavras, porque temos entre nós o pai de toda a instrução.
Depois do jantar o grupo foi para a capela, a fim de ouvir as orações vespertinas da grande temporada. O senhor do castelo e Sir Gawayne sentaram-se juntos durante o serviço religioso. Quando a esposa do primeiro, acompanhada de suas donzelas, deixou seu lugar após o serviço, parecia ainda mais bela do que Guinever. Uma dama mais idosa levou-a pela mão, e mostravam ambas aspectos muito diferentes, pois enquanto a mais jovem era clara, a outra era amarela, e tinha faces ásperas e enrugadas. A mais jovem possuía pescoço mais alvo do que a neve, a mais velha tinha sobrancelhas negras e lábios escuros. Com a permissão do senhor, Sir Gawayne saudou a mais velha e beijou cortesmente a mais jovem, pedindo-lhe que o considerasse como um servo seu. Para o grande vestíbulo foram eles, onde foram servidos especiarias e vinhos; o senhor tirou o capuz e colocou-o sobre uma lança: aquele que melhor concorresse para a alegria geral naquela temporada de Natal, ganhâ-lo-ia.
Na manhã do Natal a alegria reina em todas as moradas do mundo, e isso acontecia também no castelo onde Sir Gawayne agora vivia. O senhor e a velha esposa antiga sentavam-se juntos, e Sir Gawayne sentava-se ao lado da esposa de seu hospedeiro. Seria fatigante demais contar todos os banquetes, regozijos e alegrias que abundavam por toda a parte. Trombetas e trompas desatavam suas notas prazerosas, e grande foi o júbilo durante três dias.
O dia de São João era o último das festas de Natal, e no dia seguinte muitos dos cavaleiros despediram-se do castelo. Seu dono agradeceu a Sir Gawayne a honra e o prazer de sua visita, e empenhou-se para mantê-lo em sua corte. Queria saber, também, o que levara Sir Gawayne a sair da Corte do Rei Artur antes do fim dos feriados de Natal.
Sir Gawayne replicou qTfe fora "uma grande e muito alta missão" que o forçara a deixar a Corte. Depois, perguntou ao seu hospedeiro se já ouvira falar na Capela Verde. Porque precisava estar ali na véspera do Ano Novo, e antes preferia morrer do que falhar na sua missão. O príncipe disse a Sir Gawayne que lhe ensinaria o caminho e que a Capela Verde não ficava a mais de duas milhas do castelo. Então, Gawayne ficou alegre, e consentiu em retardar-se um pouco mais no castelo, o que causou regozijo também ao senhor castelão, que mandou chamar as senhoras para conversarem com seu hóspede. E pediu a Sir Gawayne que lhe prometesse conservar-se em seu quarto na manhã seguinte, pois devia sentir-se cansado depois, caso viajasse para tão longe. Entretanto, o hospedeiro e outros homens do castelo deveriam levantar-se muito cedo para se dirigirem à caça.
— Seja o que fôr — disse o hospedeiro — que eu consiga obter na floresta, seu será, e o que quer que aconteça ser seu, em seu lar, eu considerarei livremente como meu.
E, a título de penhor, deu um anel a Sir Gawayne, anel que êle não devia entregar a ninguém — não! — mesmo quando fosse pedido três vezes pela mais bela mulher existente sob o céu! Com tudo aquilo concordou prazerosamente Sir Gawayne, e assim, bastante animadamente, um contrato foi feito entre eles. Quando a noite chegou, cada qual dirigiu-se cedo para seu quarto.

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